Filas nos portos. É normal?

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Nas últimas semanas, as pessoas assistiram incrédulas as intermináveis filas de caminhões para acessar a estrutura portuária de Santos e escoar a chamada supersafra de grãos, expondo grotescamente as deficiências de nossa infraestrutura.

Foi triste assistir os evolvidos em um “jogo de empurra” inaceitável. A autoridade portuária afirmando que o problema é fora do porto, o operador portuário alegando que está trabalhando no limite, o operador da estrada entendendo ser vítima do processo, as agências de fiscalização e regulação estaduais e federais se entreolhando, esperando para ver “quem pisca primeiro”.

Do outro lado, aquele “grupo de chatos”, que reclama de tudo. O produtor da soja, o caminhoneiro e transportador, o exportador, o armador atracado em outra fila e os coitados usuários normais da estrada, que não deveriam sofrer com essa situação.

O problema nos remete a um problema crônico na gestão da infraestrutura. A falta de planejamento e projetos bem elaborados, de estratégia e planos de longo prazo. Difícil saber se por razões da luta política, alternância de poder ou por um intervalo longo de tempo sem formarmos engenheiros e especialistas, o fato é que nossos projetos perderam qualidade e eficiência e as ações estão sendo tomadas por impulso das emergências ou por períodos coincidentes com mandatos eleitorais.

O caso da soja é exemplar. Todas as informações estavam disponíveis – a expectativa da safra, o caminho do escoamento, a estrutura da estrada e do terminal portuário e a deficiente capacidade de armazenamento. O que faltou? Planejamento e vontade política de minimizar os efeitos previsíveis.

Armazéns emergenciais, pátios provisórios de estacionamento, negociação de cronograma e esquema de logística com produtores e transportadores, entre tantas outras ações preventivas e algumas corretivas.

A situação só reforça a necessidade de tornar mais ágeis os investimentos em infraestrutura e reforçar o modelo de concessão e parcerias com a iniciativa privada. Também indica o acerto das medidas para modernizar e ampliar a capacidade portuária do País.

Enfim, para responder a pergunta do título: não, não é normal e não está certo o que está ocorrendo nos portos. A sociedade também não pode perder a capacidade de se indignar  e exigir ação de quem tem a responsabilidade de resolver. Sendo otimista, esperamos que esse caos presenciado no escoamento da safra este ano pelo menos sirva de exemplo de como não devemos proceder. E preciso esperar que o Ministério Público tome atitudes que deveriam ser dos reguladores do serviço publico?

 

Paulo Godoy é presidente da Abdib