Tenho escrito bastante sobre a atuação do Banco Central na condução da política monetária, pois entendo que ele está mais conservador do que deveria, inclusive num cenário de desinflação. Estamos com taxa real de juros acima de 10%a.a. e há trabalhos empíricos sérios mostrando que a política monetária contracionista é ineficaz para reduzir a inflação, quando parte dela decorre de problemas de oferta. Como já escrevi, estão colocando fogo na casa para assar o leitão e isso custa muito caro à sociedade.
Como o Banco Central, ao definir a taxa SELIC, dá bastante importância aos números do Relatório FOCUS, como demonstram as atas do COPOM, resolvi fazer uma breve comparação entre o que o mercado previu no início de cada ano e o efetivamente ocorrido, desde 2021, considerando inflação, PIB e câmbio.
Inflação: Pelo FOCUS, a inflação acumulada Nesses 5 anos (2021 a 2025) teria sido de 24,7%, mas foi de 33,3%. Esse aumento, não captado pelas estimativas do mercado, decorreu de choques de oferta no mercado de alimentos e energia e dos efeitos da desvalorização cambial;
PIB: Aqui está a maior divergência. Pelo FOCUS, o crescimento acumulado do PIB nesses 5 anos teria sido de 8,3%, mas foi de 17,7%. Trata-se de uma diferença de mais de 100%. Aqui é incompetência mesmo do mercado;
Câmbio: Pelo mercado, a taxa de câmbio estaria em R$ 6,00/US$ 1,00 no final de 2025. Isso equivale a uma desvalorização cambial de 15,4% frente à taxa verificada no final de 2020, que foi de R$ 5,20/US$ 1,00. Nosso câmbio deverá fechar 2025 em torno de R$ 5,40/US$ 1,00, indicando desvalorização de apenas 3,8%. Mais uma vez, um erro crasso do mercado.
O Banco Central, que é um ativo de Estado dotado de quadro técnico competente, deveria seguir seus próprios cálculos e dar menos importância ao que diz o mercado. Parece que o FOCUS mais atrapalha do que ajuda.
Roberto Figueiredo Guimarães
Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional

