ABDIB promove seminário sobre escassez de mão de obra 

A ABDIB realizou na quinta-feira, 11 de setembro, o workshop “Escassez de Mão de Obra Direta no Setor de Infraestrutura”. Promovido pelo Comitê de Construção Pesada, o encontro, em formato...

A ABDIB realizou na quinta-feira, 11 de setembro, o workshop “Escassez de Mão de Obra Direta no Setor de Infraestrutura”. Promovido pelo Comitê de Construção Pesada, o encontro, em formato virtual, reuniu reunindo representantes de empresas, entidades e especialistas em Recursos Humanos para debater os desafios e soluções relacionados à formação e retenção de profissionais qualificados, essenciais para o desenvolvimento da infraestrutura brasileira. 

ESCASSEZ DE MÃO DE OBRA — Sylvia Lorena, Superintendente de Relações do Trabalho da Confederação Nacional da Indústria — CNI, destacou em sua apresentação, que abriu o workshop, que a escassez de mão de obra já é realidade e tem impactos diretos na produtividade do setor. Segundo dados da CNI, 22,4% das empresas industriais relatam dificuldades de contratação, enquanto levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção indica que 90% das construtoras enfrentam problemas para contratar trabalhadores qualificados. Sylvia Lorena explicou que o problema é resultado de transformações no mercado de trabalho. Hoje, os jovens buscam mais flexibilidade e autonomia. Outro fator é a dificuldade de inserção de beneficiários de programas sociais. Ela ressaltou, ainda, a necessidade de fortalecer programas de aprendizagem, modernizar a legislação trabalhista, acompanhar novas formas de contratação e aprimorar os programas sociais para estimular a empregabilidade. 

O coordenador do Comitê de Construção Pesada, Miguel Noronha falou sobre a perspectiva prática do setor de construção pesada. Ele destacou que as maiores construtoras brasileiras têm receitas relativamente modestas em comparação ao porte do país, evidenciando capacidade limitada para atender à crescente demanda. Para ele, o principal desafio não está em financiamento ou equipamentos, mas na disponibilidade de mão de obra qualificada. Noronha enfatizou que o sucesso do setor depende da gestão eficiente de equipes, cultura organizacional e produtividade, que devem ser desenvolvidas de forma integrada. 

RAIO X DA INFRAESTRUTURA BRASILEIRA – Paulo Coutinho, da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, apresentou o Raio X da Infraestrutura Brasileira. O estudo aponta que os investimentos em infraestrutura e logística têm impacto maior na produtividade das empresas do que as reduções tributárias. Coutinho mostrou que cada R$ 1 bilhão investido acrescenta R$ 1,4 bilhão no PIB e destacou os efeitos sociais positivos em saúde, educação, segurança e meio ambiente.  

Ele apontou, ainda, o baixo estoque de infraestrutura no Brasil (35,5% do PIB, contra 60% da média mundial) e a necessidade de investimentos anuais de 4,19% do PIB para alcançar patamar adequado em 20 anos. Ressaltou também a importância de tornar o setor mais atrativo, aumentar produtividade com métodos construtivos modernos e capacitação, e estruturou um plano para fortalecer a base de profissionais no médio e longo prazo. 

EVASÃO NOS CURSOS DE ENGENHARIA — Verônica Lojan, líder da área de Pessoas e Organização da Manta Associados, abordou a evasão nos cursos de engenharia, que varia de 25% a 80%, impactando diretamente a disponibilidade de profissionais qualificados. A evasão é mais elevada no ensino a distância e em áreas como a engenharia civil. Nas instituições privadas, até 68% abandonam antes do sétimo período, enquanto nas públicas o índice chega a 40%.  

Verônica destacou que o déficit de engenheiros pode chegar a 500 mil até 2030, agravado pela migração de profissionais para outros setores. Ela apresentou experiências internacionais de sucesso: na Alemanha, a combinação de dias de estudo e trabalho reduziu a evasão para 15%. No Canadá, alternância de quatro meses de estudo e quatro meses de trabalho manteve o índice em 18%; e no Chile, políticas de bolsas e flexibilidade curricular reduziram a evasão para 22%. Destacou também o papel da inteligência artificial para apoiar o ensino, reduzir evasão e atrair novos alunos. 

ESCASSEZ DE MAO DE OBRA — Márcio Carvalho, Diretor de Recursos Humanos do FBS Construtora, compartilhou o diagnóstico da empresa sobre a escassez de mão de obra, com foco na qualificação e retenção, especialmente em funções operacionais como operadores de máquinas. Entre as iniciativas destacaram-se programas de atração com uso de tecnologia, o fortalecimento do programa Indica um Amigo (responsável por mais de 25% das contratações mensais) e a criação de um centro de treinamento interno, com cursos de 60 horas, além de parcerias com Senai e outras instituições para capacitar carpinteiros, pedreiros e profissionais de segurança viária.  

Carvalho também enfatizou trilhas de desenvolvimento de carreira para transformar ajudantes gerais em profissionais qualificados e reforçou a importância da humanização nos canteiros de obra, engajamento e reconhecimento para garantir equipes sustentáveis e produtivas. 

BEM-ESTAR NAS OBRAS — Paulo Montenegro e Tiago Volnei da Elastri Engenharia apresentaram o Programa Bem-Estar nas Obras, que organiza e sistematiza práticas da empresa em um framework estruturado. O programa engloba envolvimento de lideranças, regras e procedimentos, verificação e controle e canais de comunicação. O programa integra diretores, gerência de suprimentos, sustentabilidade, engenheiros, encarregados administrativos e equipes de segurança, garantindo acompanhamento mensal de indicadores de satisfação dos colaboradores. 

O programa segue normas legais e contratuais, com checklists e inspeções periódicas em alojamentos, refeitórios, veículos de transporte e auditorias internas. A pesquisa diária de satisfação via QR Code permite que colaboradores avaliem a qualidade da alimentação, transporte e instalações, com dados analisados em tempo real e respostas rápidas a problemas. Além disso, o programa promove humanização, conforto, áreas de lazer, eventos de integração e padronização de práticas para colaboradores que se deslocam entre obras. Segundo os executivos, a iniciativa contribui para engajamento, retenção e produtividade, evidenciada pelo feedback de trabalhadores: “essa equipe cuida bem de nós”. 

Silvana Santos, representante do Sindicato Nacional da Indústria da Construção — SINICON, destacou a complexidade do setor, com múltiplas dimensões — empresarial, política, jurídica e geográfica — que exigem soluções integradas e inovadoras. Reforçou a necessidade de romper padrões, pensar fora do que já foi feito e construir sistemas alinhados, com percepção de ponto de partida e visão de futuro compartilhada. Propôs diagnósticos aprofundados, comitês executivos e de projeto, pilotos regionais para aprendizado e ajustes, e integração de esforços. Destacou, também, a importância de se ampliar a base de trabalhadores, incluindo mulheres, pessoas com deficiência e profissionais que saíram do setor. Por fim, ressaltou que o setor deve atuar como catalisador e integrador, garantindo governança, métricas, engajamento, retenção de talentos e valorização profissional, promovendo transformação estruturada e sustentável. 

Simone de Lourdes Paes, da construtora Andrade Gutierrez, apresentou iniciativas da empresa para atração, retenção e desenvolvimento de talentos, incluindo digitalização dos processos de recrutamento, fortalecimento da marca empregadora, programas de estágio e trainee, aceleração de jovens talentos internos, parcerias com universidades, programas de qualidade de vida e desenvolvimento de liderança. Destacou que essas ações visam criar uma empresa atrativa, inovadora e sustentável, capaz de enfrentar os desafios da escassez de profissionais qualificados no setor de infraestrutura.