Na semana passada, observamos comportamentos distintos nas taxas de juros. Nos Estados Unidos – EUA, na primeira reunião do Banco Central (FED) sob a gestão Trump, os juros ficaram no mesmo patamar (4,25%-4,50%a.a.). Aqui, na primeira reunião sob Galípolo, o Banco Central (BC) elevou as taxas de juros de 12,25%a.a. para 13,25%a.a. Nos EUA, as taxas reais de juros estão em torno de 3%a.a., enquanto aqui, na casa de 8%a.a.
Lá, ao manter inalteradas as taxas, o FED mostrou que está atento à inflação e a eventuais riscos e incertezas quanto à condução da economia.
Aqui, ao elevar as taxas de juros, nosso BC afirma que a inflação aumentou, as expectativas inflacionárias estão deterioradas e há pressões do mercado de trabalho.
De fato, além das expectativas (que é algo probabilístico e até mesmo sobrenatural), há questões palpáveis e objetivas pela frente que afetarão a inflação, como o aumento do ICMS sobre combustíveis e a elevação do preço do diesel.
Além, é claro, do impacto sobre a inflação em decorrência da elevada desvalorização do Real frente ao dólar observada em 2024. Aqui, cabe uma observação. Se o BC não tivesse exagerado nos comentários desfavoráveis sobre o “fiscal” (a realidade comprovou isto) e tivesse agido no mercado de câmbio de forma mais rápida e incisiva, talvez o dólar e as expectativas não estivessem comprometendo tanto a economia.
Inês is dead. O que fica é a tempestade perfeita: expectativas acirradas, câmbio, inflação e juros elevados e menor crescimento do emprego e da renda.
O governo tem sua parcela de culpa, pois também precisa mostrar com ações mais incisivas, que pretende caminhar rumo ao superávit primário estrutural.
Utilizei neste artigo algumas vezes as palavras “expectativa” e “incisiva”. Elas, se bem trabalhadas, podem transformar a tempestade em chuvas de verão, que fazem menos estragos.
Roberto Figueiredo Guimarães
Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional

