Jogando para a plateia

O Banco Central acaba de aumentar a taxa de juros (SELIC), que passou de 10,50%a.a. para 10,75%a.a., sancionando a expectativa do mercado, mesmo estando nossa política monetária já no lado...

O Banco Central acaba de aumentar a taxa de juros (SELIC), que passou de 10,50%a.a. para 10,75%a.a., sancionando a expectativa do mercado, mesmo estando nossa política monetária já no lado contracionista e a inflação encaminhando para o centro da meta (inclusive com deflação recente).

A autoridade monetária, em votação unânime, alega que a economia está operando acima do seu potencial, pressionando a inflação. Estranho é que no mesmo dia do aumento dos juros, foi divulgado pelo Ibre/FGV, que o Monitor do PIB recuou 0,1% em julho. No mesmo mês, o comércio varejista ampliado cresceu apenas 0,1% e a produção industrial caiu 1,4%. Tem muita assimetria de informação, o que retira efetividade da política monetária. 

Trata-se de um movimento contrário ao que está acontecendo no mundo, cuja política monetária está cada vez menos restritiva. 

Com esta SELIC e considerando a expectativa de inflação, estamos com juros reais de 6,5%a.a., desnecessariamente elevados, pois não estamos num momento de excesso de demanda agregada clássica, embora o Banco Central e os Faria Limers pensem o contrário. 

Só este aumento dos juros vai custar cerca de R$ 1,5 bilhão/mês aos cofres públicos. Se analisarmos estes valores, o aumento de “apenas” 0,25 p.p. na SELIC custará cerca de R$ 18 bilhões. Não são valores nada desprezíveis e serão somados aos cerca de R$ 800 bilhões de custo da dívida já previstos, piorando a relação Dívida/PIB. Fora o custo adicional para as empresas e as famílias.

Isto mostra que a política de jogar para a plateia (no caso, o mercado) ou de dar um passo para trás para dar dois para frente depois, custa caro. Alguns vão alegar que o pior custo é ter uma inflação maior e que há risco fiscal. Não há, por enquanto, tal risco fiscal e, tecnicamente, não é preciso juros reais de 6,5%a.a. para trazer a inflação para o centro da meta.

 

Roberto Figueiredo Guimarães

Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional