Jogando para a plateia 2

Alguns leitores pediram para eu explicar melhor a avaliação de que os juros não precisariam ser tão elevados, tendo-se como referência os argumentos utilizados pelo Banco Central – BC para...

Alguns leitores pediram para eu explicar melhor a avaliação de que os juros não precisariam ser tão elevados, tendo-se como referência os argumentos utilizados pelo Banco Central – BC para aumentar em 0,25p.p. a taxa SELIC.

O BC utiliza, basicamente, três argumentos: (i) o ambiente externo permanece desafiador, em função do comportamento das economias dos EUA e da China; (ii) a atividade econômica e o mercado de trabalho domésticos vêm apresentando maior dinamismo do que esperado, tornando mais desafiador o processo de convergência da inflação à meta; (iii) o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal aumenta as incertezas sobre a estabilização da dívida pública. Vamos às contestações, item por item.

  1. Segundo a OCDE, as perspectivas para o ambiente externo estão melhores do que afirma nosso BC, pois mostra que, exceto com relação a uma escalada no Oriente Médio (assunto não tratado pelo BC), a economia mundial está se recuperando e deve crescer 3,2% no ano que vem;
  2. O dinamismo da economia está mais fraco do que o apontado pelo BC. Monitor PIB, produção industrial e confiança da construção estão caindo. Comércio varejista parado (até em decorrência do perigoso fenômeno das BETs, que estão retirando poder de compra das classes C, D e E). E o próprio BC afirma que ainda não há evidência de que pressões salariais estejam impactando preços;
  3.  É claro que precisamos de maior disciplina fiscal, até para melhorar a qualidade dos gastos públicos. Mas não há sinal de descontrole das contas públicas. Lembro que de 1998 a 2013, tivemos superávit primário elevado e, ao mesmo tempo, as maiores taxas de juros reais da nossa história. É preciso encontrar outro vilão.

O maior desafio do BC está em confiar nas estatísticas e não seguir literalmente as expectativas do mercado, cujos objetivos são outros. 

 

Roberto Figueiredo Guimarães

Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional