No final do ano passado escrevi dois artigos tratando de “gastança” de recursos públicos, juros e relação dívida/PIB. Demonstrei, utilizando dados oficiais do Banco Central, que não houve no Brasil no pós-Real, uma correlação direta entre aumento dos gastos e elevação da dívida pública. Ficou demonstrado, ainda, que nosso endividamento público foi e está sendo massacrado pelos elevados juros praticados no Brasi.
Vou apresentar mais alguns dados sobre o assunto, também divulgados pelo Banco Central. De 2021 até 2024 (longos 24 anos), os juros contribuíram com a bagatela de R$ 12 trilhões para o aumento da dívida pública. Aliás, é um valor superior ao próprio estoque da dívida. Inacreditável.
E sabem qual foi a contribuição do resultado primário para a evolução da dívida neste mesmo período? Pasmem, negativa, de cerca de R$ 800 bilhões. Ou seja, mesmo com os resultados desfavoráveis de 2015 a 2020, o “fiscal”, como dizem os Faria Limers, contribuiu para reduzir a dívida pública nestes 24 anos. Estes são os números oficiais.
É claro que temos problemas fiscais. Gastamos muito e mal. Gastamos muito com despesas correntes (pessoal, assistência e previdência) e pouco em investimentos. Muitas pontes ainda vão cair por falta de manutenção. Mas não foi o “fiscal” o responsável pelo aumento da dívida pública no país nas últimas décadas. Foram os juros, para reduzir a inflação.
Então, é preciso mudar o discurso. Não há uma entrevista em que, perguntado sobre a elevação dos juros, um Faria Limer não responda que o problema é o “fiscal”, que está alimentando as expectativas negativas.
É preciso buscar o superávit primário, sem dúvida. Mas não buscar por buscar. É preciso melhorar a qualidade do gasto público. Quanto aos juros, é preciso trabalhar as expectativas e reduzir a elevada indexação de preços ainda muito presente na economia.
Roberto Figueiredo Guimarães
Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional

