Imaginem um país hipotético, situado ao sul do equador, com as seguintes características: PIB crescendo acima da média mundial no pós-covid, desemprego baixo, inflação acima da meta, reservas internacionais e dívida pública elevadas, altíssima desigualdade de renda, orçamentos públicos comprometidos com despesas correntes, investimentos públicos aquém do necessário, balança comercial positiva, elevadíssimas isenções fiscais, robusto programa de concessão/PPP de infraestrutura, elevados gastos do parlamento sem planejamento, polarização política, indústria tentando se recuperar, economia indexada à inflação e arcabouço fiscal ainda incapaz de gerar resultados positivos, dentre outros.
Imaginem que o governo deste país, no meio do seu mandato, esteja sob forte crise de confiança, com sua moeda extremamente desvalorizada. Neste país, o Banco Central é independente e há meta de inflação a ser atingida.
Agora, imaginem que o novo chefe do Banco Central deste país, que foi indicado pelo Presidente da República, assume seu posto no início da segunda metade do mandato do Poder Executivo, com a função de trazer a inflação para a meta, tendo como principal ferramenta a elevação das taxas de juros (sempre mais altas do que o necessário), cujos efeitos sobre a economia e emprego são nocivos. Imagino o seguinte diálogo entre os dois:
Presidente da República: Você pretende jogar os juros nas alturas? Se pretende, vai jogar a economia no chão e haverá eleições em menos de dois anos.
Chefe do Banco Central: Presidente, nós não nos preocupamos com as eleições e sim com a inflação e o pleno emprego, na forma da lei. Se aumentarmos os juros agora, conseguiremos reduzir a inflação e voltar a abaixar os juros até o fim do ano. Mas, para este êxito, vou precisar do seu apoio às propostas de redução dos gastos públicos gestadas no Ministério da Fazenda.
Roberto Figueiredo Guimarães
Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional

