Nas últimas semanas, tivemos vários eventos e reportagens em comemoração aos 30 anos do Plano Real. Foi, sem dúvida, um plano exitoso de estabilização de preços, que acabou com nossa hiperinflação, digno de Prêmio Nobel de Economia.
As mesmas semanas também foram férteis no noticiário econômico, envolvendo discussões acerca das taxas de juros, câmbio e política fiscal, principalmente após o Banco Central ter mantido a SELIC em 10,5%a.a., o que corresponde à taxa real de juros de 6,4%a.a., uma das mais elevadas do mundo.
Estamos vivenciando uma contradição: por um lado, os indicadores econômicos não estão tão ruins assim (nem a política fiscal, que poderia estar melhor, é claro) e, de outro, há uma crise de confiança, por vezes exagerada, que fez os indicadores de risco dispararem (dólar, CDS e EMBI+).
Os Faria Limers apontam que as estruturalmente elevadas taxas de juros no País, inclusive agora, decorrem da política fiscal, que não gera superávit primário.
Mas, em muitos exemplos, os números não sustentam esta afirmação. Durante um longo período, dezesseis anos consecutivos (de 1998 a 2013: FHC e LULA), tivemos superávit primário sólido e consistente em torno de 2,5% do PIB (1,5% do PIB em FHC e 3,1% do PIB em LULA) e, mesmo assim, os juros reais médios ficaram elevadíssimos, em aproximadamente 10%a.a. (15,5%a.a. em FHC e 8,6%a.a. em LULA). Inacreditável, mas foi isto mesmo.
E sob TEMER e BOLSONARO, tivemos déficit primário médio de 1,8% do PIB e juros reais bem mais reduzidos, até próximos a zero. Pela tese dos Faria Limers, os juros deveriam ter explodido. Não há muita racionalidade nisto.
É preciso aproveitar esta celeuma, para procurarmos os verdadeiros vilões dos juros elevados no Brasil. Deve ser um combo, que passa pelo nosso complexo de vira lata, confiança, comunicação, valorização cambial, modelagens, fiscal, etc.
Roberto Figueiredo Guimarães
Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional

