MUDANÇA DE HUMOR PODE CUSTAR CARO
Até a semana passada, o noticiário econômico, pelo menos no que se refere à política fiscal, estava relativamente calmo, ajudado pelo bom desempenho das contas públicas neste início de ano. Digo relativamente, pois os analistas não deixaram de acompanhar a inflação e juros nos EUA (e seus efeitos no Brasil), governança na Petrobras e no setor elétrico, pautas bombas no Congresso Nacional, elevado valor das emendas parlamentares, etc.
O noticiário esteve mais focado em outras pautas, como o PL das saidinhas, relacionamento entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, Musk X STF, prisão de deputado federal, etc. Tinha muito assunto.
De lá para cá, houve uma mudança significativa no noticiário e no humor do mercado, com o acirramento da guerra no Oriente Médio, dúvidas com relação aos juros americanos e o envio, pelo governo ao Congresso Nacional, do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO para 2025, que estabelece as diretrizes gerais para a elaboração do orçamento. Na prática, o governo pretende passar o resultado fiscal de 2025, de um pequeno superávit primário (0,5% do PIB) para zero, adiando o ajuste rumo a resultados positivos.
Ato contínuo, o dólar alcançou R$ 5,29, turbinando a tendência de alta iniciada no início de abril e a bolsa de valores caiu quase 4%. Os indicadores de risco Credit Default Swap – CDS e o EMBI+ subiram 23% e 10%%, respectivamente, no mesmo período.
O Banco Central, que já vinha com informações conflitantes acerca dos indicadores da economia brasileira, vai ter, agora, mais complicadores para definir a trajetória das taxas de juros.
Se o Banco Central não mantiver a velocidade de redução dos juros, a conta da dívida pública ficará mais cara. Na verdade, o aumento da dívida pública pela não redução dos juros será maior do que o decorrente da redução do superávit primário em 2025.
Roberto Figueiredo Guimarães
Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional

