Outro dia li um comentário dizendo que “até os estagiários da Faria Lima sabem que o fiscal está ruim e que o arcabouço não é uma solução, mesmo sendo um passo na direção certa”.
Neste ponto, concordo parcialmente com os estagiários. Não temos um arcabouço fiscal dos sonhos, capaz de melhorar no curto prazo a composição dos gastos públicos, com menos despesas correntes e pagamento de juros e mais investimentos. Mas a direção está certa, pois tenta alterar a tendência observada há anos, quando as despesas cresceram mais do que as receitas.
O novo arcabouço tenta inverter esta lógica, via a fixação de um limitador no crescimento das despesas. O tamanho do ajuste fiscal rumo ao superávit primário no médio prazo vai depender da evolução da atividade econômica e da arrecadação tributária.
Voltando aos estagiários. Discordo deles (ou de seus superiores) quando analiso suas previsões. Vejamos o que o mercado (Relatório Focus) estimou para 2023, lá no início do ano: PIB crescendo 0,78%; inflação de 5,36% pelo IPCA e de 4,61% pelo IGP-M; Taxa de câmbio de R$ 5,28/US$ 1,00; Selic de 12,25%; resultado primário de -1,20% do PIB.
Vejamos como estão as mesmas previsões hoje: PIB crescendo 2,18%; inflação de 5,06% pelo IPCA e deflação de 1,86% pelo IGP-M. Taxa de câmbio de R$ 5,00/US$ 1,00; Selic de 12,25%; e resultado primário de -1,01% do PIB.
Duas variáveis chamam muito a atenção. A primeira é o PIB. O mercado estima hoje um crescimento para 2023 quase três vezes maior do que o previsto no início do ano. A outra é a inflação medida pelo IGP-M. O mercado estimava inflação de 4,61% e agora prevê deflação de 1,86%. Chega a ser hilário.
As estimativas para IPCA, câmbio e resultado primário também estão melhores hoje, em comparação com o previsto há apenas 5 meses.
É por isso que as previsões dos Faria Limers precisam ser analisadas com cautela.
Roberto Figueiredo Guimarães
Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional
