A frase “The economy, stupid” (a economia, idiota), cunhada em 1992 por James Carville, então estrategista da campanha de Bill Clinton, ficou famosa, no sentido de que as insatisfações dos eleitores com seu bem-estar (emprego, renda, juros, renda disponível, impostos, poder de compra, etc.) ditam os resultados das eleições.
Estamos vendo isto nas eleições mundo afora, após os efeitos da Covid-19 e da guerra Rússia-Ucrânia sobre a inflação, juros e atividade econômica.
O Brasil é um exemplo de livro-texto, pois as quatro recessões ocorridas nos últimos cinquenta anos foram seguidas de desdobramentos políticos. Vejamos.
A primeira decorreu da crise da dívida externa e dos juros internacionais do final dos anos 70.O PIB caiu 6,3% no período 1981-83 e a inflação atingiu 1.000% (a década de 80 foi chamada de “década perdida”). O que veio depois? Movimento das Diretas Já, seguido de eleições indiretas para Presidente da República.
A segunda ocorreu no início dos anos 90, com economia em hiperinflação e moratória externa e setor público quebrado, chegou o bloqueio da poupança e o PIB caiu 3,9% no triênio 1990-92 e a inflação atingiu mais de 2500%. O que veio depois? Impeachment.
A terceira veio no biênio 2015-16, com o PIB caindo 7,0%, apesar dos elevados gastos públicos, e a inflação atingiu 18%. O que veio depois? Impeachment.
A quarta decorreu da crise da Covid-19, com redução abrupta da oferta e demanda de bens e serviços e isolamento social e da guerra Rússia-Ucrânia. O PIB caiu 3,3% em 2020 e recuperou-se no biênio 2021-22, mas a inflação acumulada no triênio 2020-22 alcançou 22%. O que veio depois? A não reeleição do Presidente da República.
O fato é que não há gestão pública que consiga prosperar num ambiente de descontentamento social, refletido na falta de emprego, inflação elevada e redução da renda disponível das famílias.
Roberto Figueiredo Guimarães
Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional

