DOSE EM EXCESSO

Nosso Banco Central passou as taxas de juros de 2%a.a. (mar/21) para 13,75%a.a. (ago/22), na tentativa de reduzir a inflação, que saiu de 4%a.a. e ultrapassou 10,0%a.a. Hoje, já numa...

Nosso Banco Central passou as taxas de juros de 2%a.a. (mar/21) para 13,75%a.a. (ago/22), na tentativa de reduzir a inflação, que saiu de 4%a.a. e ultrapassou 10,0%a.a. Hoje, já numa trajetória de redução da inflação e dos juros, a taxa Selic está em 12,75%a.a. Como a expectativa de inflação para os próximos 12 meses está em 3,9%a.a., o juro real, de 8,5%a.a., ainda está extremamente elevado.

Muitos defendem esta política monetária restritiva para domar a inflação. Há até analistas apostando na interrupção da queda dos juros. Outros avaliam que a dose foi muito elevada, com reflexos negativos na economia. Vejamos se podemos contribuir com esta discussão, apresentando algumas estatísticas.

O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), uma prévia do PIB, registrou recuo de 0,77% em agosto em comparação com julho. O Monitor do PIB/FGV recuou 0,6% no mesmo período e, o mais preocupante, com queda de 5% dos investimentos na variação trimestral, principalmente no setor de máquinas e equipamentos.

Os dados divulgados pelo IBGE vão na mesma direção. O comércio varejista caiu 0,2% em agosto e o varejista ampliado apresentou redução ainda maior, de 1,3%. A produção industrial de bens de capital desabou incríveis 11,4% nos primeiros oito meses deste ano e a da indústria de transformação caiu 1,3%. O índice de receita nominal de serviços também caiu 0,2% em agosto.

Os dados do PIB relativos ao segundo trimestre do ano já mostravam queda de investimentos e da indústria de transformação.

Não precisa ser um especialista em modelagem econômica para perceber que a economia brasileira está sofrendo as consequências das elevadas taxas de juros. Tudo indica que a dose de juros foi e está excessiva.

Da mesma forma como na área da saúde, uma superdosagem de remédio pode agravar o quadro já existente ou até mesmo gerar novos problemas. 

 

Roberto Figueiredo Guimarães

Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional