Um leitor, após ler o artigo EXPORTAÇÕES, que mostrou a elevada concentração na nossa pauta de exportações (tanto de produtos como de compradores externos), perguntou se o Brasil sofre da doença holandesa, expressão inspirada na elevação das receitas de exportação de gás dos Países Baixos nos anos 60, que causou a valorização do câmbio e tornou menos competitivas as exportações de produtos industrializados, contribuindo para desindustrializar a economia.
A analogia com o Brasil é boa, pois temos recebido muitos dólares em decorrência das exportações de commodities agrícolas e minerais e observado forte desindustrialização. De fato, as participações da agropecuária e da indústria extrativa no nosso PIB subiram de 5,0% e 0,7%, respectivamente, para 6,2% e 4,2%, de 1995 a 2023, enquanto a da indústria de transformação caiu de 16,8% para 15,2%. Houve até longos períodos em que a produção da indústria de transformação chegou a ficar na casa dos 12% do PIB.
O Brasil teve uma enfermidade parecida com a doença holandesa em vários momentos no Pós Real. Mas não foi a doença holandesa propriamente dita, pois nosso Banco Central valorizou demasiadamente o câmbio e aumentou abruptamente as taxas de juros, independentemente dos resultados das nossas exportações de commodities. O fez para segurar a inflação e atrair capitais internacionais. Tudo indica que nossa indústria de transformação ainda não se recuperou desta enfermidade.
Na verdade, temos a nossa própria doença, cujo sintoma é o estrutural e baixo crescimento da economia desde o final dos anos 70. Dentre as causas, destaca-se a educação de baixa qualidade, falta de políticas públicas estáveis de Estado de médio e longo prazos, ambiente de negócios complexo, péssima alocação dos recursos públicos e baixa inserção nas cadeias globais de valor.
Vai demorar, mas é “só” atacar tudo isto.
Roberto Figueiredo Guimarães
Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional

