O PRIMEIRO DIA DO ABDIB EXPERIENCE 2024

A ABDIB realizou nesta quinta-feira, dia 28 de novembro, a edição 2024 do ABDIB Experience, evento que, há cinco anos, marca o lançamento do Livro Azul da Infraestrutura, faz um...

A ABDIB realizou nesta quinta-feira, dia 28 de novembro, a edição 2024 do ABDIB Experience, evento que, há cinco anos, marca o lançamento do Livro Azul da Infraestrutura, faz um balanço do cenário de investimentos do ano que se encerra e aponta a perspectivas para o próximo período. De acordo com o levantamento da entidade, 2024 registrará o maior volume de investimentos públicos e privados em infraestrutura, numa série histórica iniciada em 2010. O total previsto para este ano — que é de R$ 259,3 bilhões, sendo R$ 197,1 em investimentos privados e R$ 62,2 em recursos públicos — supera, em valores presentes, os R$ 239,7 bilhões do recorde anterior, que era de 2014. 

O evento, que reuniu mais de 130 participantes, em modo virtual, foi aberto pelo presidente do Conselho de Administração da ABDIB, André Clark, que destacou a comemoração dos 70 anos da entidade, que serão comemorados em 2025. “O horizonte à frente é de grande otimismo, mas de grandes desafios também”. Clark apontou que os possíveis efeitos das novas condições geopolíticas do mundo podem aumentar o protecionismo e prejudicar o país. “Mas, também, estamos diante de oportunidades ímpares”, observou. 

  

PRIMEIRO PAINEL   

O primeiro painel, intitulado Perspectivas da Infraestrutura: Desafios, Gargalos e Oportunidades, foi moderado pelo presidente-executivo da ABDIB, Venilton Tadini, que observou que “o país está crescendo a taxas significativas diante do contexto recessivo que tentamos superar”. O biênio 2023 e 2024, observou, mostra a retomada fantástica nos investimentos de infraestrutura, mas também confirmam os desafios do fortalecimento das Agências Reguladoras e da agilização da emissão das licenças ambientais.  

 

 

O destaque do painel foi a apresentação do Livro Azul, feita pelo diretor de Planejamento e Economia da ABDIB, Roberto Guimarães, que em sua fala destacou os 495 projetos de infraestrutura em diversos setores, nos âmbitos federal, estaduais e municipais que estão em fase de estruturação e devem entrar em execução nos próximos meses. Guimarães observou que a estimativa de investimentos privados para os próximos cinco anos é de R$ 372,3 bilhões, um volume superior aos R$ 227,8 bilhões observados no ano passado. Ainda assim, observou, o hiato de investimentos, sobretudo em Transporte e Logística, ainda é muito significativo (o conteúdo do Livro Azul pode ser consultado em www.abdib.org.br/livro-azul-da-infraestrutura-edicao-2024 ). 

Na sequência, Gustavo Gusmão, sócio da empresa de consultoria EY, fez uma apresentação prévia da 12ª Edição do Barômetro da Infraestrutura, que será lançada no início de janeiro, com previsões dos executivos das empresas do setor para o primeiro semestre de 2025. O Barômetro, uma parceria da ABDIB com a EY, registra o aumento do otimismo do setor em relação ao crescimento. “O mercado está percebendo que ainda há muito a se fazer em relação à infraestrutura e que o setor privado ainda terá muitas oportunidades de investimentos nos próximos anos”, observou Gusmão. O setor também considera o momento favorável a novas contratações de mão de obra e a novas concessões e parcerias público-privadas no âmbito dos estados e dos municípios. (a edição do Barômetro será disponibilizada nas próximas semanas). 

Na sequência das apresentações, Tadini lançou aos debatedores uma pergunta sobre a viabilidade da transformação em realidade dos dados das apresentações sobre a retomada do crescimento da economia. De um modo geral, eles têm uma visão otimista sobre as possibilidades de crescimento, embora reconheçam que ainda há passos importantes a serem dados no sentido da regulação e da segurança jurídica e dos marcos legais. 

Renata Norato, especialista de investimentos em Infraestruturas da IFC na América Latinada). “A gente precisa de políticas, instituições e regulações para fazer essa agenda andar na velocidade desejada”, disse. Vilma Pinto, Economista, professora do IDP e ex-diretora da IFI, sobre o mesmo tema, considera o cenário factível. “Temos iniciativas governamentais importante e de um diagnóstico que mostra a necessidade de investimentos”, observou. “Mesmo num quadro de escassez de recursos públicos, há uma sinalização clara de que o governo trata os investimentos como prioridade”.  

Mauro Santos Silva, Coordenador de Infraestrutura Econômica e Regulação do Ipea, “Nós enxergamos uma perspectiva favorável para a infraestrutura”, observou Silva. Há perspectiva de aumento nos investimentos e avanços regulatórios importantes, observou. “A regulação é um desafio permanente”, observou. 

  

SEGUNDO PAINEL 

O segundo painel tratou do Novo Modelo de Regulação do Setor Elétrico e tratou da Transição energética, Fontes renováveis, Hidrogênio Verde, Subsídio cruzado e Eficiência energética. O moderador foi Fabiano Carvalho, diretor de Regulação da Neoenergia. Carvalho destacou o aumento da importância das mudanças climáticas para a definição da matriz energética neste momento e falou das oportunidades que o fato de já ter uma matriz energética limpa abre para o Brasil — sobretudo na atração de datacenters e de ouros investimentos que serão decididos em razão da oferta de energia. “Precisamos de políticas públicas eficientes, para que a oferta de energia limpa seja barata e ao alcance de todos no país”, observou. 

Para abrir os debates, Carvalho indagou os participantes sobre a agenda prioritária neste momento de mudanças. A primeira apresentação foi feita pelo deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania/SP). Na opinião de Jardim, há quatro pontos a serem observados neste momento. O primeiro é o de que passamos de um modelo de geração concentrada para um modelo de geração distribuída — e isso terá cada vez mais impacto daqui por diante. Outro ponto é a convivência do mercado cativo com o mercado livre. “Os encargos estão nas costas do consumidor cativo”. Outro ponto é o uso da inteligência artificial no gerenciamento do setor. Finalmente, existe a questão da sustentabilidade, que será cada vez mais importante daqui por diante.  

Jardim defendeu a necessidade, diante dessa nova realidade, de uma nova regulação do setor elétrico. “As medidas que vêm sendo tomadas para a regulação do setor elétrico têm sido pontuais e localizadas e nos colocam diante do risco de ter um Frankestein. Precisamos ter uma visão mais ampla do cenário” disse o deputado. “Corremos o risco de, vendo as partes, não conseguirmos ver o todo”. 

Leandro de Oliveira Albuquerque, secretário Nacional substituto de Transição Energética e Planejamento do Ministério das Minas e Energia, começou defendendo a necessidade do papel que o Brasil terá no novo cenário energético nacional. “Precisamos de uma estratégia que conecte todas as partes e insira o Brasil nas novas cadeias globais de valor”. Segundo ele, o Brasil vem se organizando para ter condições de atrair os investimentos que serão gerados para usufruir da matriz energética limpa e renovável que o país oferece. “Outros países, inclusive da Europa, que largaram na frente, não contam com uma regulação tão eficiente como a brasileira”. 

Nivalde de Castro, professor e coordenador do Gesel — Grupo de Estudos do Setor Elétrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, observa que o mundo passa por um processo de transição e diversificação da matriz energética e que o Brasil está muito adiantado em relação aos demais países. Concordando com os quatro pontos observados por Arnaldo Jardim, Castro observou que o Brasil está bem em relação ao futuro, mas estamos com o problema de encontrar um modelo adequado a essa nova realidade. 

“Temos um grande potencial de crescimento, mas temos problemas onde o impacto das mudanças se fará mais contundente — que são as redes de distribuição de energia”. Castro considera o momento favorável. “Temos extensão, sol, vento e uma população ávida por emprego. Precisamos que o Estado recupere a capacidade de apontar o rumo da regulação para aproveitar as oportunidades que estão sendo oferecidas”. 

A diretora de Gestão de Ativos de Geração da Eletrobras, Lilian Queiroz, que é coordenadora do Comitê de Geração da ABDIB, observou a existência de divergências e a necessidade de convergência entre as diversas áreas envolvidas na geração hidráulica, eólica, solar, nuclear e outras fontes existentes no país.  “Em novembro, tivemos o recorde do consumo de energia” e que a matriz hidráulica, em que pese o crescimento de outras fontes, ainda responde pela maior oferta. O país, segundo ela, precisa se preocupar com a renovação de ativos tanto na geração, mas não pode se descuidar da transmissão e da distribuição de energia. 

Na opinião de Glauco Freitas, country managing diretor da Hitachi Energy Brasil observou que o Sistema Interligado Nacional é hoje uma referência mundial — mas que outros países estão consumindo hoje toda a capacidade da indústria mundial. Isso pode dificultar o ritmo da renovação que será necessária no SIN. “A tecnologia não será o gargalo na transição energética. O risco é o timing da tomada de decisões”, observou. O país precisa, segundo ele, de tecnologia nova — que é modular e repetível — para suprir a necessidade. Ele se refere a subestações compactas, baterias e novos produtos que podem ser produzidos pela indústria nacional. “A hora de investir é agora”, disse. 

 

TERCEIRO PAINEL  

O terceiro e último painel do primeiro dia do evento foi moderado por Ralph Rosemberg, CIO e Sócio Fundador da Perfin Investimentos, e tratou das Fontes de Recursos e Atração de Investimentos: Finanças Sustentáveis (Fundo Clima, ECO Invest, Green Bonds, Crédito de Carbono), Mercados de Capitais, Fomento e Multilaterais. Rosemberg observou, na abertura dos debates do terceiro painel, que o Brasil vive um ciclo de investimentos privados positivo que, pela primeira vez, contará com fontes mais variadas. “Vamos precisar de muitas fontes de capital para fazer frente às necessidades crescentes de investimentos”.  

 

O Secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, apontou que o governo tem apoiado de forma direta recursos para os investimentos em infraestrutura, mas, também, está apoiando o BNDES para a atração de mais recursos privados para investimentos em infraestrutura. E, também, os recursos privados — caracterizados pelo uso das debêntures incentivadas de infraestrutura e pela atração de recursos externos por meio de instrumentos como o Ecoinvest. “As oportunidades de investimentos estão crescendo e precisamos garantir que isso continue”. 

Na sequência das apresentações, Cláudia Prates, Chefe do Departamento de Transição Climática do BNDES, observou que o banco de fomento está preocupado em calcular o impacto de suas operações de financiamento sobre as emissões de carbono no Brasil. O banco também está desenvolvendo uma matriz de riscos climáticos em suas operações. Com a elaboração de uma nova taxinomia sustentável, o banco fechou este ano 40% de suas operações em operações verdes.  

Daiane Daniele Santos Rocha, Diretora de Programa do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional observou os esforços que vêm sendo feitos no sentido de ampliar o financiamento dos projetos de infraestrutura. Ela observou que os fundos de desenvolvimento administrados pelo ministério não recebem aportes do governo federal desde 2016 e a ampliação dos recursos vem se dando por meio de órgãos de fomento multilaterais.  

O deputado Aliel Machado (PV/PR), que relatou na Câmara dos Deputados o projeto de lei sobre Créditos de Carbono, que tramitava na Casa desde 2016. “Para resumir o ganho que tivemos com a aprovação da proposta, observo a união a agenda econômica com a agenda ambiental”, disse Machado. O deputado observou que o Brasil precisa “trabalhar em duas frentes — na do mercado obrigatório e na desse mercado voluntário”. Segundo o deputado, o projeto de crédito de crédito de carbono que agora será analisado pelo Senado procurou “criar pontos estruturantes que deem credibilidade aos créditos e ofereçam segurança jurídica a quem investir nesse mercado”. 

O deputado lembrou um estudo internacional da Consultoria McKinsey, segundo o qual o mundo vai transacionar US$ 50 bilhões em créditos voluntários de Carbono até 2030 — e 15% desses recursos serão destinados ao Brasil. “As oportunidades são enormes”, observou o deputado. 

Carlos Villa, da Solvi, observou que a lei relatada pelo deputado é fundamental, embora chegue com um atraso de 24 anos — visto que o primeiro negócio com créditos de Carbono foi fechado no Brasil em dezembro de 2000.  Villa diz que o setor de resíduos pode gerar 10 milhões de toneladas e que pode significar negócios de R$ 180 bilhões por ano e que o projeto relatado pelo deputado Aliel Machado é um avanço e atende as necessidades do setor. “É preciso que o projeto seja aprovado pelo executivo conforme foi aprovado pelo legislativo”.