Doses maiores do que o necessário 

Parece haver consenso de que a inflação atual no Brasil, um pouco acima da meta, tem, no mínimo, quatro origens: (1) elevada indexação da economia; (2) excesso de consumo em...

Parece haver consenso de que a inflação atual no Brasil, um pouco acima da meta, tem, no mínimo, quatro origens: (1) elevada indexação da economia; (2) excesso de consumo em alguns setores; (3) crise de oferta em função de problemas climáticos e (4) elevada desvalorização cambial verificada nos últimos meses. 

Para trazer a inflação para o centro da meta (3,0%a.a.), o Banco Central vem aumentando as taxas básicas de juros, que já estão em 14,25%a.a. e parece que vão subir mais. O objetivo da autoridade monetária é reduzir a pressão sobre os preços provenientes do excesso de demanda sobre a oferta. Pretende atacar, basicamente, a origem (2) acima. Também pode impactar um pouco na origem (4), com a maior entrada de dólares no país. 

Mas o aumento dos juros não interfere na origem (1) e contribui negativamente na origem (3) ao reduzir a capacidade de aumento da oferta. 

No ano passado, o Banco Central contribuiu para a algazarra fiscal e jogou lenha na fogueira, alimentando desnecessariamente a desvalorização do Real. Além disso, não fez nada para impedi-la e tinha muita bala para isto.  

A prova está aí. Nada aconteceu no “fiscal” e o Real valorizou-se bastante em decorrência de efeitos externos.  

E sobre a eficácia da política monetária, uma autoridade do Banco Central falou recentemente que, “talvez os canais de transmissão da política monetária não funcionem com a mesma fluidez com que funcionam em outros países e que eventualmente você precisa dar doses maiores do remédio para conseguir o mesmo efeito” (grifo meu). 

O Banco Central, ao invés de trabalhar para melhorar os canais de transmissão da política monetária, num ambiente de choques de oferta, sobe as taxas de juros para níveis acima do necessário. 

Se fosse um experimento de laboratório, tudo bem. Mas não é. Isso custa muito caro aos cofres públicos, empresas e famílias.  

 

Roberto Figueiredo Guimarães 

Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional