O artigo da semana passada, onde mostrei que a economia está mais fraca e, por esta razão, os juros poderiam cair mais um pouco, gerou reações antagônicas entre alguns leitores.
De um lado, estão os que concordam que há espaço para uma redução nos juros. De outro, há os que defendem a atual taxa, alegando, inclusive, que o Banco Central foi premiado no exterior pela condução da política monetária iniciada no segundo semestre de 2021, que trouxe a inflação para baixo.
Não há dúvida de que a política monetária restritiva ajudou a reduzir a inflação, mesmo num ambiente dominado por choques de oferta. Ocorre que os mesmos efeitos sobre a inflação talvez pudessem ter sido obtidos com juros um pouco menores (um a dois pontos percentuais) e, consequentemente, com menor impacto negativo na economia e no custo da dívida pública.
Faço uma analogia. Uma pessoa ganha o leilão de um ativo qualquer, com envelope fechado, pagando 100 e o segundo lugar ofereceu 80. Como ele poderia ter ganho com 81, por exemplo, deixou dinheiro na mesa.
No caso da política monetária, o dinheiro na mesa são os impactos dos juros nas contas públicas e no desempenho da economia. No biênio 2022/23, a indústria de transformação e os investimentos, muito sensíveis a juros, caíram 0,8% e 1,9%, respectivamente.
E os efeitos nas contas públicas são superlativos. O Tesouro Nacional gastou com juros, de 2022 até hoje, a preços corrigidos, cerca de R$ 2,3 trilhões. Eles foram os principais responsáveis pelo aumento da dívida pública. Se os juros estivessem, desde então, de um e meio a dois pontos percentuais menores, o Tesouro teria economizado aproximadamente R$ 350 bilhões, contribuindo para a trajetória de estabilização da relação Dívida/PIB.
Se não atacarmos as causas dos nossos juros estruturalmente elevados e o “fiscal” não é o único vilão, não sairemos do lugar.
Roberto Figueiredo Guimarães
Diretor da ABDIB e ex-Secretário do Tesouro Nacional

