Venilton Tadini, presidente-executivo da Abdib, participou de dois eventos na última semana – Seminário Brasil 2018, pela Amcham, dia 4, e Infra2038, no dia 5 – nos quais abordou os desafios para a retomada do crescimento econômico sustentável. Tadini fez uma avaliação histórica, demonstrou a importância do papel do Estado no setor e recomendou medidas.

O cenário para a recuperação dos investimentos em infraestrutura é difícil diante de um panorama fiscal restritivo: ajuste incompleto nas contas públicas, déficit fiscal relevante, gastos correntes em crescimento e imposições da lei que limita os gastos (PEC do Teto). Isso resultou em corte brutal no nível de investimentos públicos, o que deve se repetir nos próximos anos. O presidente-executivo da Abdib criticou essa postura do Estado.

Para as plateias presentes nos dois eventos – 250 pessoas na Amcham e 100 pessoas no Infra2038 –, foram listados números sobre a participação pública e privada nos investimentos em infraestrutura no Brasil e no mundo, considerando países desenvolvidos e emergentes.

Participação histórica – Os dados, compilados de instituições globais como o Banco Mundial, evidenciam que a presença dos investimentos do Estado tem sido historicamente muito forte em todos os países, com ênfase em saneamento básico e transportes. O papel do Estado foi e continua relevante, explicou Tadini.

Tadini disse que há um discurso corrente que tem sido repetido no mercado e que precisa de algumas considerações. Ele se referiu a análises correntes indicando que será a iniciativa privada a responsável pela retomada do investimento em infraestrutura em montante suficiente para escorar o crescimento econômico. “Infelizmente, pelos dados que temos, isso não é verdadeiro.”

“E não é verdadeiro por razões de natureza estrutural”, adicionou, informando que muitos investimentos que são necessários na infraestrutura não oferecem retorno suficiente para atrair o setor privado. “Isso não é uma peculiaridade nossa, é uma peculiaridade do investimento em infraestrutura no mundo, seja na América Latina, Ásia ou Europa – não tem como fazer a iniciativa privada entrar em seguimentos que não tem retorno”, disse. “Obviamente, qualquer participação privada é bem-vinda e depende de bons projetos.”

No Brasil, o quadro se repete, mesmo que haja participação privada mais pujante. Tadini alertou que o setor privado, sozinho, não terá condições de puxar a retomada dos investimentos em infraestrutura no montante que é necessário para elevar o atual patamar de aportes totais na infraestrutura (1,5% do PIB em 2017) para algo que permita ao menos cobrir a depreciação dos ativos (3,0% do PIB ao ano).

Funding e garantias – Há desafios comuns entre as diversas regiões para investir em infraestrutura. Nos setores em que o “fundinge garantias foram equacionados, a participação privada cresceu consideravelmente – sempre considerando setores e projetos que oferecem retorno ao investimento no longo prazo.

Na América Latina, historicamente, o investimento em infraestrutura é baixo. Tadini explicou que há a necessidade de fortalecer as instituições e os instrumentos que têm poder de direcionar, captar e aplicar recursos no longo prazo para os investimentos na infraestrutura.

Em qualquer lugar do mundo, frisou o presidente-executivo da Abdib, é necessário explorar o potencial da participação privada sem perder de vista que o setor público é essencial como investidor na infraestrutura.

Os problemas do Brasil derivam de mais de 25 anos de falta de planejamento adequado e definição de projetos estruturantes, emendou Tadini. O resultado é a ausência de bons projetos, escolhidos a partir de uma racionalidade econômica e de condições para inserir o Brasil no fluxo de comércio global com competitividade.

O presidente-executivo da Abdib cobrou maior quantidade de bons projetos para concessões e PPPs e ações “mais diretas” de política econômica para permitir a retomada da economia e da arrecadação pública. “Do ponto de vista do ano que vem, infelizmente, ainda não será através da infraestrutura que nós retomaremos o crescimento”, avisou.