Mercado nervoso

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No dia seguinte à eleição, as bolsas de valores subiram e o dólar caiu. O mercado estava otimista com relação ao futuro. Já na semana passada, com dúvidas com relação à condução da política fiscal a partir de 2023, ele ficou nervoso e os indicadores mudaram de sinal. 

Tudo é mera especulação, pois o mercado, que nada mais é do que a representação dos gestores de recursos próprios e de terceiros, sempre trabalha antecipando movimentos em função de expectativas. Além disto, nem todo o mercado pensa da mesma forma, mas ele entende ser mais conveniente que todos sigam o mesmo caminho para ninguém errar sozinho.

Na prática, o que aconteceu após as eleições para deixar fazer o mercado passar de otimista a pessimista em apenas alguns dias? Resposta: a definição das equipes de transição e as negociações junto ao Congresso Nacional em torno de uma flexibilização da regra do teto dos gastos para acomodar despesas no orçamento de 2023, que, diga-se de passagem, já não reflete a realidade.

Estas negociações deveriam ser elogiadas, pois estão sendo feitas por representantes de um governo eleito que ainda não tomou posse e o Legislativo, às claras e de forma objetiva, com exposição dos valores envolvidos e suas destinações. É a democracia funcionando.

Fala-se de recursos adicionais da ordem de R$ 170 bilhões. Isto representa cerca de 1,7% do PIB. Não vai fazer diferença relevante na relação Dívida/PIB. Isto é muito menor do que o custo da dívida, com juros reais de 8,5% a.a. tão elevados. A relação Dívida/PIB não vai explodir em 2023 e nem a inflação.

O importante não é 2023, mas a trajetória da política fiscal no médio prazo. Para isto, o mercado deveria lembrar que desde o Plano Real, os maiores e mais consistentes superávits primários foram obtidos justamente nos Governos Lula. Como o jogo está só começando, aguardemos os próximos lances.

 

Roberto Figueiredo Guimarães

Diretor da ABDIB e Ex-Secretário do Tesouro Nacional