Pomba e falcão 2

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Em fevereiro, escrevi que os bancos centrais no mundo, em função da aceleração da inflação, já estavam mudando o rumo da política monetária. Ou seja, estavam passando da prática de juros reduzidos, chamada de dovish, da palavra dove, pomba em português, para a de juros maiores, chamada de hawkish, que vem de hawk, falcão em português.

O banco central brasileiro elevou as taxas de juros de 2% a.a. para 13,75% a.a., na tentativa de reduzir a inflação, que saiu de 4% a.a. e ultrapassou 10,0% a.a. O mesmo movimento tem sido adotado pelos bancos centrais americano e europeu, mas com intensidades menores. 

Por mais que se procure, não há indicadores que mostrem excesso de demanda pressionado a inflação, que justifiquem juros tão elevados.

As vendas do comercio varejista estão 10,26% abaixo dos níveis observados em dez/21. Houve queda em todas as atividades, exceto no consumo de combustíveis, lubrificantes e materiais de construção. As maiores quedas estão nas atividades de tecidos, vestuário, móveis e eletrodomésticos. O rendimento real habitual do trabalhador, embora em recuperação, ainda está menor do que os níveis de 2021. 

Os investimentos, que deveriam estar subindo para alavancar renda e emprego, ainda estão inferiores aos observados em 2021. E a causa disto passa pelas elevadas taxas de juros.

Até a política fiscal está ajudando, com superávit primário de 2,48% do PIB em 2022, melhor resultado desde 2011. 

Parece que o banco central exagerou na dose, pois nossa inflação, cuja formação não é predominantemente de excesso de demanda, já está sendo reduzida por medidas exógenas à política monetária, como a redução de tributos sobre combustíveis. Alguns até defendem que se a autoridade monetária erra, que seja por excesso.

Mas não nos esqueçamos de quem paga a conta de um “eventual” excesso de juros: a população de mais baixa renda.

 

Roberto Figueiredo Guimarães

Diretor da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base – ABDIB e Ex-Secretário do Tesouro Nacional