Eficiência energética e renováveis ampliam oportunidades para a indústria

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Agenda de descarbonização tem feito Estados Unidos e Europa acelerarem políticas industriais em disputa tecnológica, enquanto Brasil deveria avançar na modernização do setor elétrico

 

A realização da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP 26) em Glasgow, Escócia, entre outubro e novembro de 2021, deverá intensificar os investimentos em fontes renováveis, eficiência energética e digitalização, uma forma de as economias acelerarem a transição energética rumo a uma economia de baixo carbono. Isso cria oportunidades para o Brasil e para os fabricantes de bens de capital em um momento em que Europa e Estados Unidos estão com políticas industriais agressivas.

Pensar em formas de apoiar a indústria nacional, com ações transparentes e com objetivos claros, poderia adensar cadeias locais, permitir que fabricantes nacionais participem da expansão das fontes renováveis no Brasil e ainda exportar parte da produção. Esses foram os principais pontos discutidos no sexto episódio da websérie Transição Energética e Desenvolvimento Sustentável, desta vez para discutir sobre avanços tecnológico, transição energética e política indústria. O evento foi realizado pela Abdib no dia 25 de novembro. O sétimo e último episódio trará debates sobre financiamento, riscos e garantias para a expansão da energia renovável.

 

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“O tema da eficiência energética ganhou o topo da agenda corporativa no cenário de transição energética e para uma economia de baixo carbono, o que cria grandes desafios para os países. O gasto com eficiência energética no mundo deve chegar a US$ 300 bilhões em 2021, um volume 10% superior ao ano anterior. Mesmo assim, o montante ainda é ínfimo, segundo estimativas do governo dos Estados Unidos, esse investimento anual teria de triplicar para contribuir com as emissões líquidas zero de carbono até 2050. Os governos podem ter papel importante na área, seja financiando, seja desenhando boas políticas industriais com objetivos claros e transparentes”, destacou o presidente-executivo da Abdib, Venilton Tadini.

De forma similar pensa Sérgio de Oliveira Jacobsen, vice-presidente e CEO da Smart Infrastructure da Siemens do Brasil. “O tema se tornou ainda mais importante porque passamos perto de uma crise energética recentemente”, destacou. Em 2050, a população deve chegar a 9 bilhões de pessoas, com 70% morando nas cidades. Hoje são cerca de 7 bilhões de pessoas com metade delas em centros urbanos, locais em que ocorre mais de dois terços das emissões de poluentes globais. A demanda energética deve crescer com força. “Esse é o tamanho do desafio energético e climático que temos pela frente”, apontou Jacobsen.

 

Velocidade maior na diversificação da matriz, com foco nas renováveis

Daniel Marteleto Godinho, diretor de Relações Institucionais e Marketing da WEG, destacou que a superação desse desafio está ligada a três tendências: crescimento das fontes renováveis no abastecimento elétrico; eficiência energética; e eletrificação, puxada pelos transportes. Ele disse que, em relação à expansão das fontes renováveis, haverá uma exigência ainda maior na velocidade da diversificação da matriz com foco em eólicas, solares, biomassa, geração a partir de resíduos e um especial crescimento da geração fotovoltaica distribuída. “Isso trará inovações em smart grid e armazenamento, o investimento público pode apoiar isso”, disse. Em relação à eficiência energética, haverá necessidade na indústria, no agronegócio, nas cidades, na cadeia logística. “É uma das melhores formas de combater as mudanças climáticas.”

Godinho disse que a indústria hoje responde por cerca de 60% do consumo de energia elétrica, principalmente por conta do acionamento de motores nos processos produtivos. “Há muito espaço para melhorar aí”, destacou o executivo da WEG. Para ele, a eletrificação da frota é o ponto em que o país está mais atrasado e tem suas particularidades. “O Brasil tem o etanol e isso não pode ser jogado pela janela, mas também não podemos ficar distantes de tendências globais. O Brasil tem muito potencial para liderar na fabricação de caminhões e ônibus elétricos”, observou o executivo da WEG.

 

Indústrias não acessam recursos para eficiência energética

Cássio Marx Rabello da Costa, analista de Produtividade e Inovação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), também presente ao primeiro painel do debate, afirmou que foi feita recentemente uma pesquisa com a Unicamp em que foi mensurada a relação entre PIB per capita e consumo per capita de energia, mostrando uma particularidade na conhecida relação direta entre as duas variáveis. “A partir de um determinado nível de PIB per capita, a economia de conhecimento passa a ter um peso importante, tendo crescimento do bem-estar com menor consumo de energia.” Ele apontou que o mundo não teria condições de suportar um consumo per capita global em níveis equiparáveis aos de cidadãos que vivem em países desenvolvidos, como europeus e norte-americanos.

Ana Cristina Romano Mascarenhas, gerente de Eficiência Energética da Neoenergia, disse que a concessionária tem 0,28% da sua receita operacional líquida para investir em projetos de eficiência energética, segundo determinação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), sendo que metade desse valor deve ser destinado a projetos voltados à indústria e a consumidores residenciais. No vaso da empresa, o valor atinge R$ 92 milhões este ano, mas poucos projetos da indústria acabam chegando à companhia elétrica. “A indústria não acessa esse recurso. O Brasil não tem um parque de motores muito novo, então poderia ser usado. Esse dinheiro não tem juro, a indústria paga apenas a instalação e os equipamentos, é um dinheiro barato para ser usado para eficiência”, disse, frisando que os recursos são dos consumidores, pois são cobrados na tarifa de eletricidade e repassados pela distribuidora para a agência reguladora, que os gerencia e aprova os projetos de eficiência energética.

 

Exemplo de política industrial que deu certo

Godinho, da WEG, disse que países da Europa e os Estados Unidos buscam atuar perto de suas indústrias com políticas para fomentar setores estratégicos, como renováveis e eletromobilidade. “Nos Estados Unidos e na Alemanha, os incentivos são enormes, é uma corrida para ver quem vai liderar a economia global as próximas décadas”, afirmou. Para ele, é importante é analisar as políticas industriais que não foram bem-sucedidas, mas também observar os acertos, como o da energia eólica. O executivo explicou que os principais fabricantes de equipamentos e componentes para este setor já estão instalados no Brasil, gerando 300 mil empregos diretos, dos quais 200 mil postos de trabalho são diretos. Hoje grande parte da cadeia eólica produz e fornece equipamentos localmente, sendo que há empresas que passaram a exportar parte de sua produção. Em novembro, o setor atingiu 20 GW de capacidade instalada. Há 20 anos, mal chegava a 200 MW.  Em 2011, a potência instalada estava em 1 GW de empreendimentos no país.

A política industrial voltada ao setor eólico contou com o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), iniciativa de financiamento público que funcionou como medida anticíclica durante a crise econômica global de 2008. Pelo programa, o governo federal realizou repasses ao BNDES e viabilizou taxas incentivadas de financiamento. Em paralelo, o governo federal criou, para apoiar a diversificação da matriz de geração elétrica, o primeiro leilão para contratação exclusiva de fonte eólica. O certame marca um ponto de inflexão na indústria. A maior escala dos projetos a partir dos leilões, o interesse crescente da indústria pelo mercado brasileiro, um dos mercados em expansão nesse período, e a atratividade do financiamento público com o PSI impulsionaram os investimentos nos parques eólicos e na cadeia produtiva. A cadeia eólica começou então a adensar, com a chegada de fabricantes de aerogeradores e outras peças. “Temos 300 mil empregos na cadeia e energia barata para o país. Estados Unidos e Europa estão com políticas agressivas para apoiar a indústria, estamos atrasados nisso. Precisamos avançar rápido e com vigor”, disse Godinho, da WEG.

No setor solar, em novembro desse ano, o Brasil chegou a 12 GW de potência instalada, sendo que há dez anos a participação da fonte era incipiente. No entanto, ainda importa grande parte dos equipamentos, principalmente da China, apesar de ter destaque em várias matérias-primas, como o silício. “Teríamos essa possibilidade de adicionar um elo à cadeia”, afirmou Cássio Marx Rabello da Costa, analista da ABDI. Nesse momento em que há um incremento mundial de investimentos em fontes renováveis, a China tem feito com que seu parque solar reduza as exportações para manter cerca de 50% dos painéis para serem vendidos no país. Isso restringe o mercado mundial e pode ter impacto sobre projetos fora da Ásia.

 

Mobilidade elétrica impõe desafios ao Brasil

“A cadeia do sistema energético é muito importante e às vezes é desprezada. Há um ato nos Estados Unidos que incentiva a compra do que é fabricado nos Estados Unidos e está desde a segunda guerra mundial. Como fazer isso é um desafio, mas é algo que precisa ser dito. No Brasil, tem o exemplo bem-sucedido da energia eólica”, afirmou o analista da ABDI. Ao lado das renováveis, a agência está vendo oportunidades na matriz de transportes. Fechou um convênio com o Ministério da Economia para modernização de frota de caminhões com novas tecnologias como eletricidade e gás natural.

Mobilidade elétrica é uma vertente que deverá ganhar espaço no país nos próximos anos, mas ainda existem dúvidas de como será seu avanço. “Não há por exemplo ideia de como se cobrar a energia que se recarrega, não se sabe cobrar, não há planejamento ainda”, disse Ana Cristina Romano Mascarenhas, da Neoenergia. Em Salvador, há alguns shoppings com estações de recarga, mas não se faz cobrança porque não se sabe como fazer. “Pior: se não se cobra o uso, fica difícil de cobrar a qualidade”, complementou Jacobsen.

 

Medição inteligente precisa avançar

A eficiência energética, o uso mais arraigado de sistemas de gestão de energia e a mobilidade elétrica demandam avanços na medição inteligente de energia, uma fronteira que poderia se acelerar no país. O assunto é recorrente há mais de uma década no país. De acordo com estimativas do mercado, o setor hoje conta com cerca de 80 milhões de medidores, sendo que o custo de um equipamento inteligente pode superar R$ 500, enquanto o tradicional custaria em cerca de R$ 100 a unidade. Enquanto o modelo tradicional tem um tempo de vida de 25 anos, o novo tem uma duração menor, menos que a metade. O medidor mais moderno é bidirecional, permite múltiplas ligações de geração distribuída solar e está pronto a ser acoplado à rede de recarga de mobilidade elétrica. A maioria dos projetos das concessionárias que faz a troca de equipamentos não é feita com base em recursos próprios, mas na iniciativa do programa de pesquisa e desenvolvimento da Aneel.

Hoje a velocidade da modernização das redes ainda é nebulosa em razão de indefinições regulatórias. Primeiro, não haveria incentivo econômico para a troca dos equipamentos tradicionais pelos mais novos, que são mais caros. O custo de um medidor inteligente estaria em US$ 100, sendo que outros US$ 50 seriam gastos em sistema de comunicação. Dos 80 milhões de medidores instalados no Brasil, menos de 5% deles são inteligentes. Os investimentos apenas na troca destes equipamentos e em sistemas de comunicação usados neles poderiam superar R$ 30 bilhões. Um problema é que o reconhecimento na tarifa é dado apenas na revisão periódica, que ocorre em ciclos de quatro a cinco anos.

Há um segundo ponto de indefinição: o tempo de amortização dos equipamentos é estimado pela Aneel em 13 anos, mas esse é um aspecto de preocupação. Pode ser menor em algumas áreas de concessão. Um terceiro ema crítico é que as concessionárias estão em conversas com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para que seja aberta uma frequência de espectro abaixo de 1 GHz para empresas de água, gás e energia elétrica. Com as redes inteligentes, aumenta a necessidade de comunicação com religadores, medidores, sensores e as equipes em campo. Hoje ou se usa rede de uma operadora ou se monta a própria.

 

Segurança cibernética ganha relevância no Brasil e no mundo

Outro tema que ganha importância é a cibersegurança em um momento em que empresas têm sofrido ameaças de sequestro de dados. O general Fernando Cunha, assessor de Governança do Setor Cibernético no Comando de Defesa Cibernética Brasileiro, disse que 86% das denúncias de crimes em internet no mundo estão ligadas à questão financeira, 10% dos atos ilícitos estão atrelados à espionagem industrial.

A pandemia, que resultou na mudança do atendimento presencial aos consumidores e avanço da digitalização, impulsionou o tema da cibersegurança no setor elétrico. A Aneel vem debatendo regras sobre o segmento para a área de distribuição, que pleiteia que os investimentos na área sejam reconhecidos com mais facilidade. No Brasil, ainda não há uma regulamentação específica sobre segurança cibernética para as infraestruturas do setor elétrico. No início do ano, a agência lançou a consulta 007/2021, concluída no fim de abril, sobre segurança cibernética, medida alinhada com decisão de fevereiro do CNPE que criou um grupo de trabalho sobre o tema.

Estudo da Pwc divulgado em abril aponta que o tema tem ganho destaque mundial e no Brasil a tendência é de que os investimentos sejam crescentes. Na 24ª CEO Survey da PwC, publicada em março, 47% dos executivos entrevistados no mundo em todos os setores classificaram as ameaças cibernéticas como o segundo maior risco ao crescimento das empresas. No ano anterior, o percentual foi de 33%.

Laura Fernandes Carrijo, coordenadora de Cyber Security da Siemens Energy Brasil, disse que o tema tem de estar presente desde a concepção dos projetos industriais. “O problema é que muitas unidades quando foram construídas não tiveram essa preocupação porque a internet nem existia”, observou.

Júlio Oliveira, gerente de Tecnologia da Hitachi Energy, disse que a indústria 4.0 tem trazido mais conectividade às linhas de produção e mais eficiência, mas isso pode aumentar a superfície de ataque, o que traz ainda mais atenção ao tema da segurança cibernética.

“O assunto tem ganho importância fora do Brasil com países preocupados que essas potenciais ameaças possam levar a colapsos em seus sistemas de energia”, diz Evandro Rigon, CISO da Engie Brasil.

O assunto é tratado também no Brasil. “Hoje, contamos com regulamentação no Brasil para segurança cibernética. O Operador nacional do Sistema Elétrico (ONS) trabalha em regulamentação desde 2019 e tem rotinas operacionais especificas para segurança cibernética já aprovadas e em vigor, a Aneel está em consulta pública para regulamentar a cibersegurança e, essa semana (última de novembro) o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) colocou diretrizes para a segurança cibernética do setor elétrico, principalmente aspectos de prevenção, tratamento de incidentes e respostas e resiliência do sistema, que também envolve o Ministério de Minas e Energia (MME)”, disse Rigon, complementando que há ações governamentais para incentivar e exigir dos agentes alguns cuidados e controles de segurança cibernética nas infraestruturas críticas de geração e transmissão e também há iniciativas como a do Guardião Cibernético, que fomentam o desenvolvimento integrado entre os setores críticos do país. “Vejo que, no Brasil, a regulamentação para segurança cibernética está caminhando, isso é muito bom e necessário, porque a partir deste momento é provável que o atendimento a esses regulamentos seja considerado um requisito para futuras concessões do setor elétrico, para participação nos leilões”, afirmou.

 

 

WEBSÉRIE TRANSIÇÃO ENERGÉTICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 

Episódio 1 – Modernização do setor elétrico, os seus impactos ambientais e produtividade

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Episódio 2 – Os desafios da escassez hídrica para o setor de energia elétrica

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Episódio 3 – O papel da nova Eletrobras na expansão do setor elétrico

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Episódio 4 – Geração de energia e fontes renováveis

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Episódio 5 – O gás natural como alternativa na transição energética

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Episódio 6 – A inovação tecnológica, eficiência energética e política industrial

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Episódio 7 – Financiamento, riscos e garantias

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