No limite operacional, interrupções não programadas na transmissão de energia podem causar impactos maiores

219

Compreensivas com as medidas de flexibilização das normas operacionais do sistema de transmissão brasileiro que foram definidas pelas autoridades governamentais e pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) para enfrentar a atual crise hídrica, as empresas concessionárias de transmissão de energia, responsáveis por manter linhas e sistemas disponíveis para o transporte de eletricidade de um canto a outro do país, estão também atentas aos possíveis impactos que estas medidas podem trazer. Avaliações do cenário atual e seus riscos têm sido feitas no Comitê Transmissão de Energia da Abdib, cuja última reunião ocorreu no dia 2 de setembro.

Diante da atual crise, as autoridades competentes e o ONS têm adotado medidas operativas extraordinárias com o objetivo de aumentar a capacidade de intercâmbio de energia elétrica entre as regiões do país e, assim, enfrentar e gerenciar os impactos que a fata de chuvas trás para a o suprimento de energia no âmbito nacional. As medidas têm se mostrado acertadas até então pois estão possibilitando ampliar o fluxo de carga no Nordeste para o Sudeste, aproveitando a maior geração eólica, e preservando ao máximo os reservatórios de água.

As medidas de flexibilização, no entanto, trazem um efeito colateral que é reduzir as condições de redundância da infraestrutura e a segurança operativa do Sistema Interligado Nacional (SIN), aumentando os riscos e os impactos causados por ocorrências na rede de transmissão.

Para a Abdib, mudanças extraordinárias nas regras operacionais do sistema de transmissão brasileiro têm sido necessárias na medida em que o país passa por um momento severo para o suprimento elétrico, o mais crítico na história das medições nacionais, o que exige manobras excepcionais como as que vem sendo adotadas.

No encontro realizado na Abdib, os agentes de transmissão de energia concordaram de forma unânime que a atual crise exige estrita unidade de atuação de todos os segmentos, principalmente na coordenação de ações entre os setores, de forma que a operação do SIN possa garantir a utilização de todas as disponibilidades de geração existentes e com a máxima segurança possível.

No entanto, foi ponderado que, em consequência dessas medidas, o sistema trabalha cada vez mais no limite operacional e com menos medidas de segurança sistêmica, aumentando o risco de que interrupções não programadas – como as causadas por queimadas ou raios, que antes seriam contornadas mais facilmente a partir da infraestrutura redundante – possam gerar impactos de dimensões maiores.

Em situações hipotéticas como essas, caso ocorra alguma situação de interrupção não programada no sistema de transmissão de energia, é fundamental que os casos sejam apurados considerando as inúmeras possibilidades de origem dos problemas, como determinam os procedimentos setoriais, indicou a Abdib em correspondência ao Ministério de Minas e Energia (MME) e ao ONS.

“É importante que, em um contexto em que o sistema está cada vez mais sendo colocado à prova e operando no limite, com flexibilização de inúmeras normas de segurança operacional, que haja avaliação justa e imparcial caso intercorrências surjam, evitando prejudicar injustamente a reputação e as receitas das concessionárias”, analisa Carlos Adolfo Pereira, coordenador do Comitê Transmissão da Abdib.

Há diversos tipos de ocorrências fora do alcance de gestão das concessionárias de transmissão que podem comprometer a disponibilidade das linhas e subestações, como incêndios iniciados fora das faixas de servidão, queda de balões, ações de vandalismo e furtos cada vez mais comuns de cabos e equipamentos.

O limite de operação não está presente somente no segmento de transmissão de energia, ressalta a Abdib, pois todo o sistema elétrico passou a funcionar com margens de manobra cada vez menores, da geração até a distribuição de energia.

Contexto – Nas últimas semanas, diversas medidas de flexibilização foram adotadas, várias delas com impacto na transmissão de energia.

Algumas linhas de transmissão tiveram o critério de confiabilidade N-2 (que indica que as condições estruturais para o transporte de energia permanecem suficientes mesmo que dois componentes do sistema se tornem indisponíveis simultaneamente) reduzido para o critério de confiabilidade N-1 (no qual as condições necessárias para o transporte de energia são preservadas com no máximo um componente indisponível).

As concessionárias de transmissão também passaram a registrar restrições sistêmicas para realizar as intervenções previstas em seus planos mínimos de manutenção preventiva, em decorrência das ações adotadas pelas autoridades competentes para utilização máxima destes sistemas, resultando em adiamento destas ações.

 

 

Empresas antecipam início de operação de linhas de transmissão e ajudam na gestão da crise de suprimento elétrico

 

As empresas do setor de transmissão de energia brasileiro seguem atuando no esforço para contribuir com as autoridades governamentais para atenuar os impactos das restrições hídricas no suprimento de energia elétrica. Um dos eixos da atuação do Ministério de Minas e Energia (MME) para ampliar as possibilidades de oferta de energia elétrica é antecipar a operação de empreendimentos de geração e transmissão de energia que aumentem a capacidade de produção e de transporte de eletricidade.

As antecipações de linhas de transmissão atendem demanda do MME para reforçar a capacidade de escoamento de energia elétrica entre os subsistemas regionais. Em agosto, as eólicas geraram 11 mil MW médios, principalmente no Nordeste, que junto com a essas novas linhas de transmissão permitiram uma contribuição adicional de energia para o suprimento elétrico nacional, que vive grave crise por causa das restrições hídricas.