Não considerar a construção de hidrelétricas com reservatórios foi um erro, avalia Kelman

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O especialista em recursos hídricos e ex-diretor-geral da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) e da ANA (Agência Nacional das Águas e Saneamento Básico), Jerson Kelman, afirmou que o Brasil errou ao eliminar toda e qualquer possibilidade de construir usinas hidrelétricas com reservatórios. As escolhas mais recentes como Belo Monte e Jirau têm sido por estruturas a fio d’água.

“O Brasil cometeu um erro no passado recente ao eliminar a possibilidade de produção de hidroeletricidade com reservatórios. Não estou dizendo que tenha que ser este caso, mas nós eliminamos do cenário de expansão hidrelétricas com reservatórios e chegamos ao extremo de que a própria empresa de pesquisa energética, a EPE, que é um braço do governo, não consegue nem sequer identificar locais, mapear essas usinas, se for o caso”, afirmou na quarta-feira (8) durante live realizada pelo jornal Valor Econômico.

“Pode ser que nenhuma delas seja viável, mas nós nem sequer sabemos. Nós não conseguimos nem sequer fazer um inventário de quais são os recursos naturais à disposição”, lamentou. Na visão do especialista, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), ao realizar estudos de viabilidade, considera apenas os impactos locais e não os efeitos globais de determinada obra.

“O que me parece equivocado no nosso processo decisório como país é que cada instituição examina um ângulo, um pequeno aspecto do que está em jogo no processo decisório global. O Ibama examina a questão ambiental, ele não viu as consequências. Ele não examinou que se aquela energia não for produzida ali, ela será produzida de outra maneira, possivelmente com efeitos globais. Por exemplo, será por uma térmica que vai ter que emitir gases de efeito estufa”, explicou.

Ele avaliou que pode ser que, de fato, não seja viável a adoção dessas usinas no país, mas que não é possível ter essa constatação por “autocensura dos engenheiros”. “Olhando globalmente, pode ser que tenha ainda alguma coisa a ser feita, seja usina com reservatório tradicional seja reversíveis”, disse, em referência ao modelo amplamente adotado na França no qual a água é armazenada em local mais distante, bombeada quando o custo de energia está barato e usada para geração quando os preços sobem.

Combate à crise hídrica
Questionado sobre as ações do governo para lidar com a escassez de chuvas, o engenheiro disse que não vê omissão de informações, mas que falta ao governo ser mais incisivo sobre a situação que se impõe.

“Eu não acho que o governo está escondendo, porque o próprio ministro veio e falou da gravidade e tal, mas falta uma massiva comunicação para dizer para a população ‘olha, economize porque é bom para você e a energia está cara’. Enfim, eu acho que nesse ponto há falha”, pontuou.

Disse ainda que, passada a crise, será necessário rever a governança do setor. Destacou, por exemplo, a falta de conexão entre as garantias físicas das usinas e o que é gerado. “O que podemos aprender com essa crise é a mesma coisa que aprendemos com 2001, o principal elemento que levou à crise em 2001 foi uma superestimação da capacidade das usinas hidráulicas e térmicas de atender a demanda. […] Esse foi um problema em 2001, foi identificado, tinha que ser corrigido ao longo dos anos. Isto é, tinha que encolher as garantias físicas. Não foi feito, só foi feito uma vez em 2017 e nós, agora em 2021, permanecemos com garantias físicas superdimensionadas.”

Kelman também disse que é preciso melhorar a produtividade do setor. “Essa crise tem que deflagrar uma revisita à governança do setor elétrico. Acho que o setor elétrico se assemelha ao modelo soviético. Na teoria, era perfeito. Planejamento central, método de otimização para tudo dar certo, mas na prática nós sabemos o que aconteceu. E o setor elétrico tem que, de certa maneira, estimular o desejo dos agentes de melhorarem, de aumentar a produtividade, isso está faltando”, completou.

 

Fonte da imagem: Canva

Conteúdo produzido pela Agência iNFRA e cedido para o portal da Abdib.