Indústria discute com governo saídas à crise de energia

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Além dos esforços para garantir a oferta de energia em meio à crise hídrica, o governo começa a olhar também o lado da demanda. O Ministério de Minas e Energia (MME) quer ter em mãos, até 1º de julho, um plano estruturado que permita à indústria eletrointensiva remanejar seu consumo de energia para fora dos horários de pico.

A ideia do governo é ter mais munição para aliviar o sistema nas horas em que a demanda por energia alcança o pico, afastando o risco de o país enfrentar um problema de suprimento “na ponta”, que poderia levar a blecautes.

O MME se reuniu na sexta-feira com representantes da indústria para levar um diagnóstico da situação energética e ouvir sugestões para lidar com a crise pelo lado do consumo. Segundo relatos de quem participou da reunião, não há proposta fechada. O único consenso é que qualquer iniciativa terá que ser voluntária.

“O governo entende que o ideal é já ter uma solução bem delineada, não esperar chegar a uma situação indesejada para então tomar uma providência. Não seria para aplicação imediata, até porque não existe essa necessidade agora”, disse Mário Menel, presidente da Abiape, que reúne companhias eletrointensivas e que são autoprodutoras de energia.

O prazo para se chegar a uma solução é apertado, mas viável, avalia Paulo Pedrosa, presidente da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace). “Se for um sistema simplificado, é possível. Tem que ser algo bem ágil, para começar, e eventualmente modernizar para o futuro.”

A dificuldade desse plano está em convencer a indústria a reprogramar parte de seu processo produtivo, estabelecendo condições simples e uma compensação financeira que seja atrativa. O país já fez uma experiência nesse sentido, que não foi muito bem sucedida.

No setor, a sensação é de que existe uma predisposição dos agentes em buscar soluções para ajudar o país a atravessar esse momento e evitar que o setor elétrico seja um gargalo para a retomada econômica. “Temos uma recuperação internacional vigorosa, com alta dos preços de commodities, que coloca o Brasil em condições privilegiadas. Hoje temos câmbio desvalorizado e baixa taxa de juros. Não podemos ter soluço nesse crescimento”, afirma o presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton Tadini, que também participou da reunião.

Entre especialistas do setor elétrico, a ideia de se criar um mecanismo de deslocamento da demanda para atenuar a escassez hídrica é considerada positiva. “Um programa de resposta da demanda a sinais de preços é super moderno e eficiente, é a opção de dar um sinal econômico para o consumidor deslocar seu consumo para as horas mais eficientes ou até mesmo para reduzir a demanda”, afirma Luiz Barroso, presidente da consultoria PSR.

Fonte: Valor Econômico

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