Na infraestrutura, otimismo sobre a retomada tem abalo

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Piorou nitidamente, embora sem a mesma virulência detectada no começo da pandemia, o sentimento dos executivos na área de infraestrutura sobre as perspectivas de crescimento econômico nos próximos seis meses e em 2022. A visão geral no setor é de frustração com as expectativas de retomada. Enquanto isso, o governo federal tem uma avaliação bem mais negativa do que administrações estaduais no combate à emergência sanitária.

Esse foi o quadro captado, em linhas gerais, pela nova pesquisa semestral realizada pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) e pela consultoria EY com gestores de investimentos e especialistas que apoiam a estruturação de projetos no setor. A quinta edição do Barômetro da Infraestrutura Brasileira, como o levantamento é chamado, ouviu 175 executivos entre os dias 15 e 29 de março.

O presidente da Abdib, Venilton Tadini, ressalta o momento em que as entrevistas foram realizadas. Na segunda quinzena de março, episódios como a troca de comando na Petrobras e no Banco do Brasil, além de declarações do presidente Jair Bolsonaro de que iria “meter o dedo” nas tarifas de energia elétrica, reacenderam temores de maior intervenção estatal. Também houve o impacto, segundo ele, de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) envolvendo a Lava-Jato e a reabilitação dos direitos políticos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“A lição é que, quando o Judiciário surpreende e o Executivo sinaliza eventuais intervenções, o ambiente de negócios se deteriora.”

De lá para cá, diz Tadini, houve o “golaço” dos leilões da Infra Week: 22 aeroportos, cinco terminais portuários e a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol). Matérias legislativas de interesse do setor – o novo marco legal do gás, a nova Lei de Falências e a nova Lei de Licitações – chegaram a um desfecho positivo. No entanto, o impasse sobre o Orçamento Geral da União de 2021 continua e há incertezas sobre a situação fiscal. “Temos uma armadilha, imposta pelo Teto de Gastos, que impede políticas públicas facilitadoras da retomada do crescimento”, nota o executivo.

Para enfrentar um período “absolutamente difícil” do ponto de vista macroeconômico, o presidente da Abdib defende mais investimentos públicos. “Já vimos que não basta ter taxas de juros menores para destravar o crescimento. Ninguém consegue fazer ajuste fiscal em uma recessão continuada e, neste momento, o gasto do Estado é fundamental.”

Fonte: Valor Econômico