Privatizações deste ano só criam emprego em 2022, dizem analistas e governo

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Os leilões de concessão à iniciativa privada de aeroportos, portos e uma linha de ferrovia realizados na semana passada devem gerar empregos, mas não neste ano, dizem analistas. As concessões mostram que existe interesse de investidores em colocar dinheiro no Brasil em projetos de longo prazo apesar da crise econômica e das incertezas políticas. Segundo economistas, esses negócios vão atrair investimentos e são capazes de gerar empregos.

O impacto positivo desses projetos na economia brasileira só deve ocorrer a partir de 2022, dizem especialistas em infraestrutura. O Ministério da Infraestrutura confirma que não prevê crescimento do emprego neste ano, mas ao longo de todo o período dos contratos de concessão, a partir de 2022. Apesar da expectativa positiva para o emprego, o volume de capital que o Brasil precisa injetar em transportes e logística ainda é muito superior ao que esses leilões vão gerar.

Na semana passada, foram transferidos da administração pública para empresas privadas 22 aeroportos, em três blocos, cinco terminais em dois portos, além de um trecho de ferrovia, na Bahia. O governo arrecadou com esses leilões de concessão um total de R$ 3,5 bilhões. Além desse valor, as empresas que vão administrar esses negócios assumiram compromissos de investimentos somados que chegam a R$ 12 bilhões, segundo projeções do Ministério da Infraestrutura.

 

Quando virão os empregos?

O governo planeja realizar ainda neste ano outros 22 leilões de concessão que vão transferir para a iniciativa privada 78 negócios -entre rodovias, portos e aeroportos. Após o primeiro dia de leilões, em 6 de abril, o ministro de Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, afirmou que esses projetos vão gerar 2,9 milhões de postos de trabalho diretos e indiretos em infraestrutura.

Se confirmadas as estimativas do governo, isso poderia aliviar a vida de 20,3% dos 14,3 milhões de desempregados no país, segundo dados mais recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

Economistas dizem que esses leilões irão sim atrair investimentos bilionários e gerar milhões de empregos, mas eles destacam que isso deve ocorrer mesmo apenas de 2022 em diante.

“O resultado desses leilões mostra que o Brasil continua estruturando bons projetos com racionalidade econômica, capazes de atrair o interesse de investidores com foco no longo prazo. Mas o impacto positivo desses projetos na economia vai levar um tempo até as empresas assinarem os contratos e depois começarem a captar os recursos para os investimentos.  Venilton Tadini, presidente-executivo da Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base).

Em nota, o Ministério da Infraestrutura diz que a geração de vagas ocorrerá a partir do ano que vem.

“As projeções não consideram a geração de empregos já para este ano, uma vez que, no caso dos leilões da Infra Week, os contratos com os grupos vencedores serão celebrados no 3º trimestre deste ano. Após a assinatura dos contratos, há um período de transição antes do início dos investimentos privados. Normalmente, cerca de 70% do total de investimentos previstos para o período de concessão são realizados nos primeiros cinco anos de contrato. Ou seja, o reflexo na geração de empregos deve se dar a partir de 2022. Ministério da Infraestrutura, em nota.

Apenas 4,2% do que o Brasil precisa

Segundo a Abdib -que representa 115 empresas de energia elétrica, petróleo e gás natural, transportes, saneamento, telecomunicações e indústrias de base- o Brasil precisaria a cada ano de R$ 284,4 bilhões em investimentos em infraestrutura para crescer sem gargalos. Mas em 2019, por exemplo, os aportes nesses setores foram de R$ 123,9 bilhões.

 

Para comparar, os investimentos previstos pelas empresas que venceram os leilões de aeroportos, portos e ferrovia na semana passada representam apenas 4,2% do que o país necessita. Isso se esses aportes fossem realizados apenas em um ano. Mas isso não vai ocorrer porque os investimentos dessas concessões estão programados para períodos de 10 a até 30 anos.

Faltam R$ 120 bilhões em transportes e logística

Mas a realização dos leilões é positiva porque vai atrair investimento privado justamente para a área mais carente do país em termos de infraestrutura. Segundo dados da Abdib, transportes e logística receberam em 2019 (dados mais recentes) R$ 25 bilhões. A necessidade no setor é de R$ 145 bilhões.

“Eu não acho que esses projetos possam gerar emprego já neste ano, mas é um fato positivo, sem dúvida, já termos empresas interessadas nesses projetos. Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (USP)

“O resultado desses leilões é um sinal de que o investidor vê dificuldades de curto prazo no Brasil, mas ainda assim acredita no médio e longo prazo. Mas é difícil que o impacto positivo, como geração de empregos, ocorra já neste ano. Podemos até ver o início de alguns projetos, mas de forma superficial, sem impacto relevante no PIB ou no emprego já em 2021. Carla Argenta, economista chefe da CM Capital.

Com governo sem dinheiro, infraestrutura depende de empresas

Segundo economistas, o interesse das empresas em assumir negócios de infraestrutura é positivo ainda para a retomada econômica do país porque o governo está sem dinheiro para investir nesses negócios.

O setor público está reduzindo investimentos por causa do crescimento da dívida pública e dos limites impostos pela lei para elevar despesas sem equivalente geração de receitas. No Orçamento de 2021, que ainda não foi sancionado, apenas R$ 28,7 bilhões, ou cerca de 0,7% dos R$ 4,3 trilhões de despesas previstas, irão para investimentos novos.

“O interesse privado por operar e investir em setores de transportes e logística é sinal positivo de perspectivas otimistas de médio e longo prazo sobre o país. Isto nos interessa muito, pois a recuperação da economia brasileira após a pandemia de covid-19 terá que se basear no investimento privado, uma vez que as finanças públicas brasileiras estão em estado de calamidade. Vladimir Fernandes Maciel, coordenador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Dados da Abdib mostram que os cortes de investimentos públicos em infraestrutura foram muito mais fortes que os feitos pela iniciativa privada. Os aportes do governo nesses setores caíram de R$ 71 bilhões, em 2014, para R$ 34,1 bilhões, em 2019 (-52%). Já o setor privado reduziu os investimentos de R$ 109,3 bilhões para R$ 89,8 bilhões no mesmo período (-18%).

“A privatização ou concessão não é um fim em si mesmo, mas um meio de reordenar o papel do Estado, o que não está claro, ou definido. Se se quer um Estado menos operador, isso implica a necessidade de fortalecer sua atuação como regulador, coordenador e fiscalizador do processo. O nosso passado recente já mostrou grandes equívocos nessa área. Transferir atividades mono ou oligopolistas para o setor privado muitas vezes não representa solução, mas novos problemas. Daí a necessidade de reestruturar o modelo. Antôniio Corrêa de Lacerda, professor e diretor da Faculdade de Economia, Administração, Contábeis e Atuariais da PUC/SP

 

Fonte: UOL