Especialistas indicam que hidrelétricas serão garantidoras da expansão solar e eólica

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Em um cenário futuro que tende a registrar expansão acentuada da geração de energia por fontes consideradas variáveis ou intermitentes, devido à imprevisibilidade de produzir sem interrupção que lhes são características, como a solar e a eólica, o parque de hidrelétricas instalado no Brasil será cada vez mais importante, garantindo que painéis solares e torres eólicas possam continuar a fazer parte do planejamento energético brasileiro no futuro.

A avaliação foi feita por Rafael Kelman, sócio-diretor da PSR, reunião do Comitê de Geração de Energia da Abdib no dia 6 de abril, e corroborada por diversos empresários e especialistas que participaram do encontro.

O coordenador do Comitê de Geração de Energia, Flávio Doehler, ponderou que que há atualmente um hiato no desenvolvimento de projetos hidrelétricos e que o Estado brasileiro deveria incentivar iniciativas para agentes e investidores interessados nesse tipo de geração, pois a falta futura significaria insuficiência de lastro, que vem se reduzindo cada vez mais. “O não ingresso de novas hidrelétricas não somente poderá restringir o tão desejado crescimento econômico brasileiro, como também fará aumentar a instabilidade do sistema elétrico integrado, que tem se expandido majoritariamente por fontes renováveis solares e eólicas, sazonais, disse.

Segundo Doehler, as usinas hidrelétricas reversíveis seriam muito bem-vindas nesse contexto, já que também possuem a função de dar mais equilíbrio ao sistema, mas que é necessário evoluir bastante ainda na precificação dos benefícios dessa fonte, como serviços ancilares, flexibilidade, arbitramento de energia de ponta e mesmo custo evitado da transmissão, para tornarem-na viável.

 

 

Neste contexto, as fontes de geração hidrelétrica por meio de usinas reversíveis, já presentes em diversos países, podem se configurar como alternativa competitiva considerando custos e serviços prestados ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Há projetos de pesquisa e desenvolvimento e discussões por autoridades públicas como EPE e Aneel.

Estudos – Kelman apresentou resultados de dois estudos conduzidos pela consultoria. Um deles mostra a evolução da matriz de geração de energia em um cenário futuro quando a demanda por energia dobrar em relação a 2017, permitindo identificar a penetração das fontes variáveis e indicar propostas para o planejamento e a operação do sistema interligado nacional. Outro abordou o estágio de absorção e desenvolvimento de projetos de usinas hidrelétricas reversíveis em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil.

O primeiro estudo mostra a situação da matriz de geração em 2017 e a evolução esperada em dois momentos futuros – em 2026 (ponto de chegada do plano decenal considerado) e para um cenário quando a demanda por energia elétrica dobrar em relação a 2017. O trabalho analisou a tendência de forte penetração das fontes renováveis variáveis (eólica e solar) na matriz e apontou algumas considerações sobre aspectos de planejamento e operação do sistema. Foram considerados empreendimentos viabilizados ao menor custo.

As hidrelétricas, cuja capacidade instalada em 2016 foi de 102 GW, tendem a crescer para 119 GW em 2026, mantendo esse patamar no cenário hipotético quando a demanda será o dobro da verificada em 2017. A fonte solar rende a aumentar de praticamente zero (2016) para 9,7 GW (2026) e 59,2 GW quando a demanda dobrar. A fonte eólica tende a subir de 10 GW (2016) para 28,5 GW (2026) e 69,7 GW quando a demanda dobrar. Há aumento da base térmica a gás natural também, em menor escala.

A matriz continuará muito limpa, com fator de emissão de 50 gramas por KWh, indicador correspondente a 1/10 do verificado no Reino Unido e EUA e ainda menor em comparação a outros países com matriz elétrica mais poluente, como China e Índia. Neste horizonte, quando a demanda de 2017 dobrar, as hidrelétricas ainda vão responder por 50% da geração, seguidas por eólica (26%), térmicas a gás (8%) e solar (6%).

O estudo conclui que o parque hidrelétrico brasileiro continuará a ser um garantidor e fiador da expansão massiva de fontes renováveis variáveis ou intermitentes, como solar e eólica, aportando flexibilidade essencial para a operação do sistema. Outra conclusão é que as sinergias sazonais da geração eólica com afluências hídricas aumentam o valor agregado do sistema de transmissão de corrente contínua em alta tensão de Belo Monte e que a complementariedade sazonal entre vento e afluências hídricas no Nordeste reduz a necessidade de armazenamento sazonal na região. A expansão do sistema de transmissão nacional continuará fundamental para a integração das fontes renováveis variáveis no Brasil.