Brasil tem cenário perfeito para atrair green bonds, indicam especialistas

247

Na medida em que o mundo se volta para uma economia com maior atenção a critérios de meio ambiente e sustentabilidade, o mercado financeiro também tem se especializado, com produtos novos financeiros para emprestar recursos à mitigação das mudanças climáticas e à conservação dos recursos naturais. Para os investidores, estar alinhado a essas preocupações pode ser diferencial para captação de recursos.

Uma evidência dessa tendência é o crescimento significativo dos greens bonds (títulos verdes) nos últimos anos. Estima-se que, em 2025, é possível chegar a um volume de emissões de US$ 1 trilhão ao redor do mundo. O mercado brasileiro para esses títulos verdes registra a mesma curva e movimentou US$ 1,2 bilhão em 2019, quase seis vezes mais do registrado no ano anterior (US$ 209 milhões), de acordo com monitoramento da Climate Bonds Initiative (CBI). Os especialistas buscam ensinar as características desses títulos ambientalmente adequados, enquanto muitas empresas começam a fazer emissões.

Segundo Stephen Double, sócio do escritório Holland & Knight LLP, a história dos green bonds é uma história de sucesso no mundo nos últimos anos. Ao participar de um seminário organizado pela Abdib para discutir as características dos títulos verdes e o potencial que eles apresentam para financiar diversos setores produtivos, sobretudo os de infraestrutura, ele apontou que, em 2019, globalmente, mais de US$ 250 bilhões foram emitidos nesta modalidade de título, um crescimento de mais de 50%.

Na América Latina, o cenário é similar, pois 2019 foi um ano recorde para emissões, com mais de US 6 bilhões – um valor modesto em relação às captações mundiais, mas significativo em relação aos valores obtidos pelas empresas brasileiras em 2018 (US$ 2 bilhões) e em 2017 (US$ 4 bilhões). “Em 2019, foi recorde em valor principal emitido e em número de emissores. Isso mostra a demanda até o final de 2019, crescente no mundo, para este tipo de produto. O Brasil tem sido um líder em emissões em bônus verdes no continente”, disse Double.

Os títulos verdes estão associados ao financiamento de projetos de longo prazo e são alternativas de renda fixa, de menor risco para os investidores. Double explica que é preciso “desmistificar um pouco” o tema da emissão de um título verde, que “não é um produto mágico nem complicado”. “Ele funciona do mesmo jeito que outro produto de renda fixa, a única diferença é que o produto é atrelado ao financiamento de projetos novos ou em curso relacionados ao clima e ao meio ambiente”, disse.

No mesmo webinário realizado pela Abdib sobre o potencial dos green bounds para o mercado brasileiro, a head da área de energia e infraestrutura do escritório Leite, Tosto e Barros Advogados, Paula Padilha Cabral Falbo, destacou que o País tem um cenário especialmente interessante para este tipo de investimento financeiro “verde”, uma vez que sua matriz produtiva é potencialmente compatível com projetos sustentáveis e de grande potencial de expansão, como energias renováveis. Ela acrescenta que essa forma de investimento deveria se estender a outros setores importantes da economia brasileira.

Além de Paula Padilha e Stephen Double, o evento contou com a participação de Katia Fenyves, gerente do Programa de Green Finance – Prosperity Fund do governo britânico, e Jorge Nemr, sócio do escritório Leite, Tosto e Barros Advogados e conselheiro e coordenador do Comitê de Ética e Responsabilidade Social da Abdib.