Revisão de carga aponta sobra de 5 GW médios nos próximos quatro anos 

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O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) aponta que a demanda energética do país deverá subir em um volume menor que o esperado nos próximos cinco anos. Em relação aos cálculos feitos em 2019, o volume demandado em 2024 deverá ser até 5,3 GW médios (Gigawatts-médios) menor que o anteriormente calculado.

Os cálculos, que impactarão diretamente nos novos leilões de energia planejados pelo governo federal, foram apresentados em ofício conjunto do ONS, da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) e da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) à ANEEL (Agência Nacional de Elétrica ), enviado na última sexta-feira (8).

No horizonte até 2024, o ONS considera a queda de demanda na carga por conta da pandemia como um evento isolado apenas ao ano de 2020, com o crescimento se recuperando já a partir de 2021 – mas sem o consumo retomar o patamar anterior, com um volume sempre menor que previsto antes.

Em 2019, a previsão de demanda estava em 81,9 GW médios em 2024. A revisão quadrimestral feita em março já reduzia a expectativa em 3 GW médios, para 78,1 GW médios. Com uma nova análise de sensibilidade apresentada agora, o volume esperado em 2024 cai para 76,6, ou 5 GW médios a menos que o previsto em 2019.

O documento é assinado pelo diretor-geral do ONS, Luiz Eduardo Barata, pelo presidente do conselho de administração da CCEE, Rui Altieri, e pelo presidente da EPE, Thiago Barral. O argumento para a revisão é que a pandemia do novo coronavírus tornou desatualizada a revisão quadrimestral da carga mais recente, realizada em março deste ano

Ao explicar o descasamento entre a realidade de hoje e o quadro apontado naquela revisão, os órgãos afirmam que “ainda havia poucos dados e informações disponíveis [durante a revisão de março] que demostrassem os reais impactos da pandemia Covid-19 que teriam reflexos sobre a economia brasileira, uma vez que as estatísticas oficiais são publicadas com defasagem temporal intrínseca aos processos de apuração”, anotou a nota.

O ONS confirmou as expectativas de que a redução prevista para a carga deste ano será de 2,9%, o que equivale a 1,38 GW médio a menos. O subsistema mais afetado pela diminuição da demanda seria o Sudeste-Centro-Oeste, que veria redução de 3,6%. O cálculo do ONS teria nova previsão para o PIB do país, que passaria do 0% de crescimento, apurado em março, para uma queda de 5% no novo cálculo.

A degradação do cenário econômico no Brasil e no mundo foi também destacada pelo órgão ao requerer a revisão extraordinária. A alteração teria de ocorrer rapidamente: “Em função desse novo cenário mais atualizado e a perspectiva de continuidade, mesmo que parcial, do isolamento social, já se observa que os primeiros resultados obtidos já para o mês de maio de 2020 e a atualização para o mês de junho, refletidos no PMO de maio de 2020, demonstram que já se justifica a necessidade de uma revisão das previsões de carga da 1ª Revisão Quadrimestral antes do mês de setembro”, aponta a nota.

A entidade anexou ao texto uma série de dados para justificar a revisão à ANEEL. Em um deles, no qual se calcula a carga semi-horária nas oito semanas antes do envio no subsistema Sudeste-Centro-Oeste, é possível notar que o isolamento gerou reduções na média semanal próximo a 25%. Enquanto a semana de 14 a 20 de março teve uma carga de 40,9 GW médios, a semana de 18 a 25 de abril registrou demanda próxima a 30,8 GW médios.

A hipótese de revisão já havia sido aventada pelo diretor-geral do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), Luiz Eduardo Barata, que está em sua última semana no cargo. A queda da carga em abril, segundo Barata, forçou o ONS a desligar 20 linhas de transmissão durante uma mínima de consumo ocorrida em um domingo, explicou o dirigente durante webinar do setor no dia 30 de abril. O diretor, porém, não explicitou naquela ocasião qual teria sido esse dia.

Resposta da ANEEL
Em resposta ao documento enviado pelo ONS, Pepitone afirmou que o órgão instruirá processo para que a diretoria delibere sobre o tema. Segundo a resposta enviada pelo diretor-geral, há previsão legal para que o PEN (Planejamento Anual da Operação Energética) seja revisto, uma vez que há casos relevantes que permitam sua análise excepcional.

Na última sexta-feira, em entrevista durante o iNFRADebate Live, Pepitone se mostrou favorável a uma revisão da carga no SIN e reiterou os argumentos apresentados por ONS, CCEE e EPE de que os níveis de demanda energética estariam desatualizados em relação à última revisão quadrimestral. A agência vê na revisão também uma chance de promover a descontratação negociada de usinas térmicas com custo de produção maior e menor eficiência energética.

Conteúdo produzido pela Agência iNFRA para o portal da Abdib.