2019 será um ano com muita geração térmica, diz ONS 

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O diretor-geral do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), Luiz Eduardo Barata, disse que o ano de 2019 prometia ser abundante em chuvas, mas que houve uma mudança radical no cenário. Diante disso, é possível que o ano exija bastante geração térmica, o que impacta nos preços da energia. Em entrevista à Agência iNFRA, o diretor-geral do operador disse que as previsões climáticas no país ficam bastante incertas a partir da terceira semana. Sobre as críticas à demora para se ligar as térmicas no início do ano para preservar os reservatórios das hidrelétricas, ele disse que “é difícil agradar gregos, troianos, romanos, etruscos…”.

Barata também defendeu o modelo computacional de preços que atualmente determina o despacho de energia no país: “Hoje eu estou convencido de que, no estágio em que estamos no Brasil, devemos continuar usando ainda o modelo computacional. Acho que precisamos evoluir para esse modelo por oferta de preço, quando o mercado passa a ter influência no despacho. Mas, no momento, defendo ainda a manutenção do modelo computacional”, disse. A seguir, os principais trechos da conversa:

Como o ONS avalia o mês de março em termos de chuvas?
Nas últimas semanas houve uma melhora nas condições de chuvas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste – e até mesmo na região Nordeste. Então, se continuar como fevereiro, não será ruim. Mas não temos garantia nenhuma disso. Nós temos um acompanhamento semanal, com o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). Temos como prever com razoável assertividade a semana que estamos vivendo e a semana seguinte. Já a partir da terceira e da quarta semanas, existem muitas incertezas.

O Cemaden prevê chuvas dentro da média para essas duas próximas semanas?
Para essas duas semanas (fim de fevereiro e início de março), estão previstas chuvas abaixo da média e, na outra semana, um pouquinho acima da média, mas no entorno da média. Mas a partir da terceira semana, os modelos matemáticos que fazem as previsões de clima são muito incertos. Então não temos uma clareza grande de como vai ser o mês de março. Outra informação importante é a presença de um El Niño fraco, que se traduz em chuvas no Sul e secas no Norte. Essas previsões são positivas porque a seca no Norte é fora da nossa região de reservatórios, e haverá chuva no Sul. Então a presença desse El Niño não é desfavorável ao setor de energia.

Os meses de janeiro e fevereiro foram muito ruins em termos hidrológicos, e alguns agentes comentaram que a decisão de despachar as térmicas foi tardia. O que acha disso?
Falando francamente, é difícil agradar gregos, troianos, romanos, etruscos… Tem sempre gente que acha que não devia ter despachado, entendeu? Eu estou convencido de que, naquele momento, foi a decisão acertada. Óbvio, imagine o seguinte: se tivermos um mês de março de chuva torrencial, vão dizer: “Não precisava ter despachado”. Mas acontece que eu não sabia. Eu não sabia o que ia acontecer. É como eu disse, a previsão climática ainda é muito difícil para um horizonte mais longo.

Mas quando a seca já era de conhecimento público, o Cemaden não conseguiu prever que ela permaneceria?
Olha, em outubro e novembro passados nós tivemos um início de período chuvoso bem reconhecido pelo Cemaden. O Cemaden disse: “Olha, começou na época certa e com a chuva certa”. Só que depois, de uma hora para outra, sem querer sair defendendo, mas nós tivemos uma forte mudança climática.

E a respeito da demanda? O consumo vem subindo por conta das temperaturas acima da média, e deve permanecer assim?
Nós tivemos um janeiro muito seco e com temperaturas muito altas, o que nos levou a ter, depois de cinco anos, recorde de consumo de energia no SIN (Sistema Interligado Nacional). Para sua referência, o último recorde que nós tínhamos tido foi em fevereiro de 2014, e ao longo de janeiro de 2019, nós batemos o recorde cinco vezes. O recorde atual, do dia 30 de janeiro, é de 90.525 MW. Mas antes desse recorde nós tínhamos batido outras quatro vezes. Então, janeiro foi muito seco e o início de fevereiro foi muito seco. E isso nos deixou sem uma ideia muito clara do que aconteceria no resto do ano.

Há risco de desabastecimento?
Posso dizer que, olhando agora, daqui para frente, estamos convencidos de que não tem risco de desabastecimento. Mas também sou prudente em dizer que é possível que nós tenhamos que usar um razoável volume de geração térmica. E isso tem impacto sobre o preço.

A tendência daqui para frente é que se tenha mais geração térmica e também leilões de térmicas?
Leilões não têm muito a ver com isso. A gente despacha o sistema com as usinas que nós temos. Nós temos hoje um conjunto de usinas que nos parece suficiente para atender toda a carga. Pelo menos no curto prazo, não há risco de desabastecimento. Agora, é muito provável que nós tenhamos que fazer uso de geração térmica. Isso garante o abastecimento, mas a um custo maior. Devemos usar mais a geração térmica, sim.

Como é feito o acompanhamento dessas térmicas?
Fazemos, na quinta e na sexta-feira de cada semana, uma programação de uso das usinas para a semana subsequente. Existe toda uma metodologia para fazer isso, que é de conhecimento de todos que atuam no setor de energia elétrica no Brasil. Acontece que, muitas vezes, usando essa metodologia, chegamos a um número de geração térmica insuficiente pela análise do Operador. Foi o que aconteceu. O Operador leva essa preocupação ao Comitê de Monitoramento, que autoriza que a gente use mais térmicas do que a metodologia estabeleceu. Isso foi o que aconteceu no início de fevereiro. Não estávamos prevendo chuvas, então era necessário despachar mais térmicas do que o modelo está determinando. O CMSE nos autorizou a despachar todas as térmicas a gás da região Sul e Sudeste.

Como enxerga as críticas ao modelo de despacho centralizado? O ministro já disse que pretende rever questões de garantia física e MRE (Mecanismo de Realocação de Energia).
De fato, o ministro Bento já se posicionou sobre a solução para o GSF [sigla em inglês para o risco hidrológico], está empenhado em resolver a questão do GSF, reavaliar os montantes de garantia física de cada usina, e tem a questão relativa ao próprio modelo de despacho. Hoje, fazemos o despacho, que de fato é centralizado, e é estabelecido através de modelos matemáticos. Existe uma ideia, num horizonte próximo, de nós avançarmos para o despacho por oferta dos proprietários das usinas, mas isso não está decidido ainda. A segunda questão é que é extremamente relevante resolver o problema do GSF, muito importante rever a questão da garantia física das usinas, mas isso não é preponderante para o despacho das usinas. Quando nós fazemos o despacho hoje, não olhamos a garantia física das usinas. Nós olhamos, no caso das hidrelétricas, é nível do reservatório, quanto de água está chegando em cada reservatório. Não despachamos as usinas em função da sua garantia física.

Poderia explicar um pouco melhor a diferença entre o despacho por oferta e o despacho por preço?
A CP (Consulta Pública) 33 prevê num horizonte futuro sair do modelo de despacho por modelo computacional e adotar o modelo por oferta de preço. Veja, o que acontece hoje é o seguinte: no modelo computacional, as informações de todas as usinas são rodadas e, em função dessas informações, sai um programa de despacho de cada uma das usinas. Quando – e se – migrar para o modelo por oferta, em vez de se estabelecer o despacho a partir de um modelo computacional, como esse que nós temos hoje, cada usina vai fazer a sua oferta de quantidade e preço. Aí tem um outro sistema, que junta essas informações todas e, a partir das quantidades e preços, estabelece quanto cada usina gera.

O modelo por oferta é melhor que o computacional?
Olha, hoje eu estou convencido de que, no estágio em que estamos no Brasil, devemos continuar usando ainda o modelo computacional. Acho que precisamos evoluir para esse modelo por oferta de preço, quando o mercado passa a ter influência no despacho. Mas, no momento, defendo ainda a manutenção do modelo computacional.

O PLD horário foi adiado para 2020. Conseguirá ser implantado?
Ele está sendo planejado, e isso é o que estamos perseguindo, que ele comece a valer a partir de 1º de janeiro de 2020. Esse ainda é o nosso programa. Que a gente disponha de um ferramental que permita calcular o preço horário e estabeleça despachos horários a partir desse mesmo modelo computacional. Tanto nós, quanto a Câmara de Comercialização, ANEEL, ministério, estamos todos trabalhando nessa direção.

Conteúdo produzido pela Agência iNFRA especialmente para o portal da Abdib.