Desafios são diversificar e elevar valor agregado das exportações industriais

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Um dos principais desafios do Brasil será ampliar a complexidade dos bens e serviços industriais exportados, o que poderia render mais valor agregado aos embarques. Hoje grande parte da exportação está voltada a commodities e produtos de baixa intensidade tecnológica. Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), de janeiro a agosto, as exportações brasileiras de alta tecnologia somaram US$ 7,6 bilhões, enquanto as de baixa totalizaram US$ 36,8 bilhões e as de bens não industriais atingiram US$ 64 bilhões.

Para aumentar as exportações com maior valor agregado, como a de bens e serviços de engenharia, setor afetado também pela Operação Lava Jato, será preciso recompor investimentos em pesquisa e desenvolvimento e inserir as empresas na indústria 4.0, afirmou Claudia Prates, diretora da Área de Empresas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ela foi uma das participantes do painel “Como fazer upgrading das exportações brasileiras”, integrante do seminário “A Retomada da Indústria, uma estratégia de longo prazo”, organizado pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) e pela Fundação Instituto de Pesquisa Econômica (Fipe) na segunda-feira, em São Paulo. “O investimento em P&D está estagnado, o que faz as exportações perderem sua diversificação e na área de exportação de serviços de engenharia perdeu-se muito nesses três anos que levamos 20 anos para conquistar”, destacou.

Em um ranking que classifica a complexidade de exportações, as brasileiras atingem a 61ª posição, enquanto a Coreia fica em primeiro lugar e a China se destaca entre as 20 primeiras nações do mundo. “O Brasil tem ainda o desafio de se inserir na indústria 4.0, o BNDES está com duas chamadas sobre o tema para avaliar projetos na área e fez um estudo com a McKinsey de internet das coisas para poder entender como pode atuar”, disse. Há oportunidades em cidades inteligentes e na área de saúde. O banco de fomento também estuda apoiar projetos de exportação da cadeia eólica, que tem tido capacidade ociosa em razão de poucos leilões de contratação de energia elétrica no Brasil por conta da crise que tem reduzido a demanda. “Estamos trabalhando para que as empresas possam exportar e conversando com o governo para criar uma plataforma de exportação e aproveitar a capacidade ociosa.”

Para Luiz Carlos Bresser Pereira, professor emérito da FGV-SP, o Brasil só terá sucesso no comércio exterior se ajustar o preço das suas exportações, ou seja, terá de ter câmbio desvalorizado e juros baixos, o que elevará a competitividade das indústrias brasileiras. “O Brasil está semiestagnado há 38 anos, com a indústria só encolhendo, a carga tributária alta com uma partilha de excedentes sendo capturada por uma alta burocracia com elevados salários e benefícios e rentistas que se apropriam de juros altos. Câmbio e juros adequados são essenciais para que a indústria retome seu crescimento e para que as exportações industriais voltem”, destacou o economista.

Simão Davi Zilber, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), destacou que o país tem errado macroeconomicamente com juros e câmbio pouco competitivos, mas ressaltou também que o Brasil precisa abrir mais sua economia, de forma gradual, para ampliar sua participação no comércio exterior. Em estudo com as 15 maiores economias do mundo com base em valor agregado de manufaturas, a brasileira é a mais fechada, sendo que o país agrega 12% de valor externo a seus embarques. “O Brasil não tem produtividade e quer fazer tudo aqui, sem abertura, não haverá ganhos de produtividade.”

Já para Samuel Pessoa, professor da FGV-RJ, a pauta exportadora não ganha complexidade há anos principalmente em razão da conjuntura política. “As restrições políticas não permitem que se tente mudar algumas variáveis macroeconômicas, quando se tenta, se bate com a cara na porta”, afirmou. O Brasil gasta 14% do PIB com aposentadorias, sete pontos percentuais a mais do que países com pirâmides demográficas similares. Esse gasto superior reduz cinco pontos percentuais da poupança do país, sendo três pontos percentuais da poupança pública e dois da privada. “É um terço da poupança do Brasil com esse sistema previdenciário. A sociedade escolheu poupar pouco, câmbio valorizado e juros elevados. Política industrial é ineficaz com essa macroeconomia”, afirmou Pessoa. Para ele, os casos bem-sucedidos de industrialização recente, como na Coreia do Sul, China e Taiwan, não estão ligados a câmbio e juros, mas à reforma educacional, a inexistência de um estado de bem-estar social e famílias que poupam muito. O economista Bresser Pereira discordou. Para ele, a educação é importante, mas os países asiáticos cresceram quando ajustaram o câmbio e os juros.

No encerramento do painel, o presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton Tadini, afirmou que os debates apontaram que o Brasil está na contramão de outras economias que estão crescendo a partir da indústria e ampliando sua renda. “Trabalhamos com um nível boçal de juros há 20 anos e estamos com o mais baixo nível de investimento em infraestrutura há décadas. Há setores da economia e da infraestrutura que demandarão a necessidade de investimentos do Estado, a iniciativa privada não fará tudo. Se a economia política não permite avanços, precisaremos mudar isso no Congresso”, disse Tadini. O investimento em infraestrutura tem ficado perto de 1,5% ao ano, sendo que 65% é da iniciativa privada. “Temos de recuperar a capacidade de planejamento, temos que saber o que queremos produzir e quais mercados queremos atender, a partir da definição da estratégia de desenvolvimento podemos planejar o crescimento da infraestrutura.”

Por Roberto Rockmann, especial para o Portal da Abdib

 

Fotos: Geraldo Lima / Abdib

 

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