Brasil assiste à redução da participação da indústria no PIB sem estratégia, política e investimento em P&D

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Integrantes do Comitê de Indústria da Abdib, reunidos dia 12 de junho, na Abdib, discutiram aspectos inerentes a uma política industrial eficiente diante da necessidade de os setores público e privado adorarem estratégias e ações para aumentar a participação da indústria brasileira no PIB. Para contribuir na discussão, houve participação especial do professor Luciano Coutinho, ex-presidente do BNDES, e do economista Caetano Penna, professor da Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ), que apresentaram estudo elaborado para a CNI: Construindo o Futuro da Indústria Brasileira – Resultados e Recomendações do Projeto Indústria 2027: Riscos e Oportunidades para o Brasil.

Coutinho explicou que o Brasil perdeu participação na indústria mundial quando comparados dados de 2005 e 2015. Houve investimentos baixos em pesquisa e desenvolvimento. Em contraposição, houve crescimento da participação da China e dos países asiáticos na produção industrial mundial e mudança de perfil industrial. Grandes investimentos em pesquisa e desenvolvimento transformaram a indústria local destes países, antes produtores de manufaturas para países desenvolvedores de marcas para produtores com designer próprio e qualidade reconhecida. A tecnologia induziu mudanças profundas na indústria da China e dos países asiáticos. Adiocnalmente, houve redução de custos de produção e de tecnologia. Hoje, há tendência de crescimento do setor de serviços associados aos produtos.

No mundo, países têm estratégias diferentes. Os EUA querem manter liderança em ciência, tecnologia e inovação e recuperar manufatura avançada. Para isso, houve dispêndio total em de US$ 533 bilhões em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em 2017. O orçamento público para P&D em 2018 aponta para US$177 bilhões, crescimento de 12,8% sobre o valor gasto em 2017. Já a China quer evoluir para uma situação de potência industrial intermediária até 2035 – e de superpotência até 2049. Para isso, o dispêndio total em P&D em 2017 somou US$ 279 bilhões.

A estratégia do Japão é ser líder em ciência, tecnologia e inovação e evoluir para uma sociedade superinteligente. Para isso, quer planeja gastar US$ 202 bilhões em P&D, o equivalente a 4% do PIB. Já a Alemanha tem um plano de longo prazo com coordenação público-privada com foco na manufatura integrada e inteligente (indústria 4.0). O dispêndio total em P&D somou US$ 105 bilhões em 2017.

No trabalho realizado para a CNI, Luciano Coutinho explicou que analisou diversos sistemas produtivos: agroindústria, insumos básicos, química, petróleo e gás, bens de capital, complexo automotivo, aeroespacial e defesa, tecnologias da informação e comunicação, farmacêutico, bens de consumo.

Quase 70% das empresas analisadas estão inferiores de digitalização, em atividades pontuais. A meta é, em 2017, contar 60% das empesas já conectadas e integradas – parte delas inteligentes. Inclusive, os concorrentes globais das empresas brasileiras já estarão neste estágio superior. Coutinho faz recomendações para capacitação de recursos humanos e de pequenas e médias empresas, pede regulação eficiente e moderna, desburocratização e digitalização da administração pública e uma centena de propostas para que o país avance na fronteira tecnológica.

O ex-presidente do BNDES disse que é fundamental que temas relacionados à política de Inovação estejam em documentos de propostas que serão entregue aos presidenciáveis. Luciano Coutinho explicou que, para haver retomada do setor industrial no Brasil, há condições fundamentais: o crescimento econômico deve ser sustentado, investimentos em Infraestrutura como alicerces para melhorar a competitividade, reformas institucionais (tributária, fiscal e financeira), reforço na segurança jurídica; previsibilidade nas taxas de juros e câmbio.

O presidente-executivo da Abdib, Venilton tadini, corroborou com as avaliações feitas por Luciano Coutinho e disse que, mais do que estar na rabeira do desenvolvimento tecnológico, o Brasil ainda está muito atrasado nas discussões sobre formulação de política industrial. Mais que isso, inclusive. “No Brasil ainda se discute se a indústria é ou não importante para o desenvolvimento do país”, resumiu. “Não existe estratégia de desenvolvimento definida”, concluiu.

Estudo – Segundo o estudo apresentado por Luciano Coutinho, houve mudanças globais no comércio, na produção, na concorrência e na inovação. A acentuação do livre comércio fragmentou geograficamente várias cadeias de valor. Empresas de países avançados terceirizaram produção e concentraram gastos e esforços em P&D, design e marketing. Novos produtores, sobretudo na Ásia, têm evoluído significativamente em P&D e se posicionaram para disputar a liderança global na área. De outro lado, os países avançados passaram a reagir, ampliando ainda mais dispêndios em ciência, tecnologia e inovação. Dessa forma, os ecossistemas de inovação estão bastante internacionalizados, com múltiplos parceiros e funcionando de forma interdisciplinar.

O desafio brasileiro é transformar as indústrias locais, fazendo-as ouviu representantes de 753 indústrias sobre as tecnologias adotadas por elas, organizou-as em quatro diferentes patamares de desenvolvimento tecnológico nas linhas de produção. Na geração 1, a produção ocorre em máquinas desconectadas da internet. Na 2, há uso de softwares, mas desconectados entre si e com a manufatura. Na 3, há integração de sistemas de criação com aqueles responsáveis pela produção na fábrica. Na 4, há uso de inteligência artificial, modelos virtuais e outros dispositivos inteligentes.

Atualmente, 37% das empresas analisadas estão na primeira geração tecnológica, 39% na segunda, 22% na terceira e somente 2% na quarta e mais avançada. Em dez anos, em 2027, há oportunidade para elevar o patamar tecnológico no sistema fabril com diversas medidas, fazendo com que uma fatia maior de indústrias esteja na terceira (37%) e na quarta (24%) gerações e uma parcela menor estejam nos patamares inferiores em tecnologia (14% na geração 1 e 25% na geração 2).