Nada muda na agenda de reformas e na política econômica, afirmam ministros

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Fonte: Valor Econômico

No primeiro evento público de que participaram após o início da crise política que ameaça o governo Temer, os ministros da área econômica buscaram tranquilizar os investidores e empresários. Henrique Meirelles, da Fazenda e Dyogo Oliveira, do Planejamento, falaram ontem em encontro promovido pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústria de Base (Abdib). Afirmaram que não há paralisia no governo e que a política econômica e a agenda de reformas serão mantidas.

Evitando a palavra “crise”, os dois citaram exemplos de pautas econômicas cuja tramitação está avançando. Meirelles afirmou que enviará ao Congresso em junho projeto de lei sobre pontos da reforma microeconômica (alienação fiduciária e cadastro positivo) e que trabalha “dia e noite” pela manutenção da retomada do crescimento econômico. “Vejo compromisso interessante do Congresso Nacional, mostrando que não vai parar. Eu aposto no futuro do Brasil, estou comprometido com a retomada e as reformas.” Segundo ele, “há consciência nacional de que as reformas precisam ser feitas”.

Dyogo destacou a edição anunciada na segunda-­feira da Medida Provisória que prevê reprogramação de pagamento das outorgas de aeroportos que estão com dificuldade para cumprir contratos de concessão. “O governo não está paralisado. O Brasil não pode parar, temos que continuar mobilizados pelas reformas e pela retomada do crescimento. Essa é a decisão do governo federal nesse momento”, disse.

Os ministros não falaram com a imprensa. Dyogo saiu diretamente sem responder aos jornalistas após discursar. Meirelles, na chegada, foi questionado se poderia ser candidato a presidente numa eventual eleição indireta. O ministro caminhou diante de câmeras e microfones até entrar no auditório sem responder. Apenas sorriu e acenou.

A assessoria da Fazenda e a organização do evento haviam combinado com os jornalistas que ele daria breve entrevista ao fim de sua palestra, como costuma fazer. Depois do pronunciamento, porém, o ministro saiu rapidamente por uma porta na outra extremidade do hotel, onde um carro já o esperava. No fim de seu pronunciamento, desculpou­-se por não ficar para responder perguntas e debater com os presentes, como, conforme disse, “gosta de fazer”.

Em caráter reservado, empresários e executivos do setor de infraestrutura e do mercado financeiro presentes ao evento avaliaram que os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estarão pressionados no julgamento da chapa Dilma­ Temer, acusada de cometer irregularidades na campanha eleitoral de 2014.

Quatro executivos de empresas nacionais e estrangeiras ouvidos pela reportagem reservadamente comentaram que são altas as chances de o presidente Michel Temer sofrer um revés no TSE, o que representaria o fim de seu mandato após se envolver num escândalo por causa da divulgação de uma conversa com o empresário Joesley Batista, da JBS.

“Claro que se trata de um processo específico, mas os ministros não são autistas, estão acompanhando o desenrolar dos fatos e são pressionados por isso”, disse uma fonte.

Outro executivo opinou que o eventual afastamento de Temer do poder pelo TSE pode “poupar o país de um alongamento da crise política gerada pelas delações da JBS, favorecendo a continuidade da agenda de reformas”.

No geral, os presentes disseram que o quadro político torna as perspectivas econômicas mais voláteis, “por isso o mais recomendado a fazer neste momento é esperar”.

O presidente da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Murilo Portugal, fez elogios a Temer, Meirelles e Dyogo e pediu a aprovação das reformas trabalhista e da Previdência. “Felizmente, o governo do presidente Temer, com a ajuda dos ministros Meirelles e Dyogo, corrigiu alguns problemas [econômicos] estruturais”, disse.

“Vivemos um momento político difícil, mas me incluo entre aqueles que advogam que todo o esforço da área econômica não seja perdido. O esforço para aprovar as reformas deve continuar”, afirmou Portugal. “É importante que as reformas trabalhista e previdenciária, qualquer que seja a decisão jurídica ou política a respeito do que vivemos, não sejam interrompidas pelo Congresso.”