Com nova gestão, Abdib busca maior integração do setor

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Tadini - CópiaApós mais de um ano sem presidente­-executivo e em meio a um conturbado cenário econômico e político brasileiro, a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústria de Base (Abdib) volta à cena. Vem repaginada, sob o comando de Venilton Tadini, cuja trajetória de carreira começou na própria entidade em 1980. Egresso do Banco Fator, do qual é acionista e onde esteve durante os últimos 20 anos, o economista tem a missão de implementar uma nova fase de atuação, a terceira, da Abdib.

No Brasil dos dias atuais, que caminha para quase 8% de retração acumulada do PIB em dois anos, e com a participação da indústria de transformação diluída a menos de 10%, a retomada do crescimento, na sua visão, passa, essencialmente, por investimentos na infraestrutura. Para o executivo, isso vai ocorrer por dois caminhos ­ o comércio exterior, que já vem respondendo com a vantagem proporcionada pelo câmbio no aumento das exportações, e grandes projetos de obras e concessões de infraestrutura.

Formalmente, Tadini chegou à Abdib três meses atrás, após passar por um processo de escolha envolvendo headhunter, mesmo com sua vasta experiência. Todavia, oficialmente, assumiu o cargo ontem à noite. Os primeiros 100 dias foram gastos na realização de um novo diagnóstico para definir como a entidade irá se posicionar de agora em diante.

Na área que é o foco da Abdib, o investimento em infraestrutura sofreu o impacto da crise fiscal e econômica do país e da Operação Lava­Jato, da Polícia Federal, que investiga contratos de obras da Petrobras. Isso criou um ambiente de incertezas para os investidores, atingindo muitos grupos ­ como grandes construtoras e empreiteiras, que expandiram seu campo de atuação, tornando­se concessionários de serviços.

Hoje, há uma paralisia grande de projetos, principalmente nos estados e municípios. No governo federal ainda há os programas de concessão ­ PIL 1 e 2. “Não é o melhor cenário para investimentos e os investidores internacionais se mostram menos atraídos pelo país”, disse.

Apesar de haver um conjunto de oportunidades em vários segmentos, dada a defasagem de infraestrutura, como em saneamento, portos, rodovias e ferrovias, lista. “É preciso voltar a ter uma análise mais sistêmica dos projetos estruturantes”, destaca.

Apesar de tudo isso, Tadini avalia que o Brasil trilhou um caminho que permitiu a estruturação de projetos de concessões de infraestrutura. “Houve avanços em certas áreas”, disse o executivo, citando o papel exercido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas não se pode ficar dependente apenas dessa fonte de financiamento.

O que falta também para os investimentos deslancharem é, fundamentalmente, um ambiente político favorável, que recoloque a infraestrutura na agenda. O país ainda patina muita nessa área: investe apenas 2,5% do PIB. O ideal seria ao menos dobrar o índice.

Sobre o governo que vai emergir após a votação do impedimento da presidente Dilma Rousseff, aprovado por uma comissão da Câmara Federal, o executivo é econômico na avaliação. “Seja qual for o resultado o importante será a composição de forças no Congresso e se essa correlação de forças será suficiente para fazer os ajustes necessários”, diz.

Com cerca de 90 associados, alguns deles envolvidos na LavaJato ­ casos de Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez, Schahin, Camargo Corrêa, Galvão Engenharia, entre outros ­, a Abdib, em sua nova fase, está adotando um código de conduta baseado em Todos os associados e novos entrantes terão de assinar. “Não é para inglês ver. Para ir para o céu tem de morrer. Vai ter política de consequência”, afirmou Tadini.

Segundo ele, o modelo irá também receber contribuições de associados que “tiveram problemas e reviram” suas práticas de compliance. Este é um dos pontos­chave da nova fase da associação do setor, que ganhou dez novos associados, depois de perder vários nos últimos tempos.

Esta é a terceira passagem de Tadini pela Abdib, onde iniciou a carreira após concluir a faculdade de Economia na Universidade de São Paulo (USP): assumiu o chefia do departamento de economia. Na época, década de 80, a Abdib reunia basicamente as empresas de bens de capital e engenharia e montagem, no âmbito da política de desenvolvimento da indústria nacional via substituição de importações. Aquela foi a primeira vez que passou por um processo seletivo para emprego. A segunda ocorreu 36 anos depois, quando um headhunter o procurou para assumir o cargo de presidente.

O desafio de representar tantos atores e por vezes com conflitos de interesse ­ fabricantes de máquinas, empreiteiras, concessionárias, instituições financeiras, escritórios de advocacia e consultorias ­ o estimulou.

Nessa fase, que ele classifica como “nova fronteira da Abdib”, o objetivo é aumentar a eficiência e produtividade na infraestrutura, integrando o segmento. Para tanto, diz, é necessário atrair ainda mais atores, notadamente quem está na ponta ­ usuários de infraestrutura ­ e quem ajuda a estruturar e garantir os projetos ­ fundos e seguradoras e resseguradoras. A reunião de representantes de todos os possíveis agentes que possam participar de projetos torna mais fácil eliminar erros que travam os processos.

 Um deles, diz, é a falta de projeto básico ou “pré­executivo” na construção, que gera uma série de aditivos. “Quando a seguradora vai ver o projeto é totalmente diferente do que ele segurou lá atrás”. Associaram­se recentemente à Abdib a seguradora Allianz, a estatal de abastecimento de água Sabesp, e a concessionária do aeroporto de Brasília Inframerica, entre outros.

Em sua trajetória, ocupou cargos no BNDES e Companhia Paulista de Desenvolvimento (CPD). No banco de fomento, ajudou a desenhar o programa de desestatização. “Individualmente, devo ter sido a pessoa que vendeu o maior valor de estatais, mais de US$ 20 bilhões”, orgulha-­se.

 

Fonte: Valor Econômico