Artigo: Saneamento é o inimigo do mosquito

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Surtos de doenças provocadas pelo mosquito Aedes aegypti dependem de dois fatores. O primeiro, um tanto óbvio, é gente, muita gente. Havia muita gente no Rio de Janeiro entre o final do século 19 e o início do século 20, quando a cidade foi atacada pelo Aedes, na época vetor da febre amarela.

Fonte: Folha de S. Paulo

Em 1900, a capital da República tinha 700 mil habitantes – quase 40% da população das 20 capitais existentes. A aglomeração desordenada no centro Rio era impressionante. Basta ler “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo.

Naquele tempo, São Paulo e Salvador tinham pouco mais de 200 mil habitantes cada, e Recife, cerca de 100 mil. Hoje há 142 municípios com mais de 200 mil habitantes. Acima de 100 mil, 300. As 26 regiões metropolitanas abrigam mais de 90 milhões de pessoas. O Aedes aegypti agradece.

A expansão do mosquito se vale de outro fator: a sujeira. Cristalizou-se a fantasia de que o mosquito da dengue, do Chikungunya e do zika vírus gosta de água limpa. Não é bem assim. Os criadouros das larvas têm sido localizados principalmente no lixo. Pneus velhos, material plástico, isopor, potes, latas, carcaças de móveis e de eletrodomésticos transformam-se em reservatórios do que se convencionou chamar de “água limpa”. Se o lixo sai, a reprodução do inseto fica mais difícil.

Há mais de cem anos, o Rio enfrentou a febre amarela porque era uma cidade imunda. Não era à toa que era chamada de “Cidade da Morte” e “Porto Sujo”.

Em 1903, o presidente Rodrigues Alves e o prefeito Pereira Passos patrocinaram aquela que é, até hoje, a maior intervenção urbana da história da cidade. Abriram-se e alargaram-se ruas, criaram-se estruturas de saneamento básico. Mais de 1.700 construções em péssimo estado de conservação do centro da cidade foram demolidas para dar lugar a novas edificações. Estima-se que um quarto da população vivia em cortiços. Dez anos antes, quase 5.000 pessoas haviam morrido por febre amarela. Cinco anos depois, foram quatro óbitos.

No Rio antigo, o governo agiu com rigor criando brigadas mata-mosquitos autorizadas a invadir domicílios e cuidar da limpeza de calhas, telhados e caixas d’água. Era no jeito ou na força. O esforço não foi em vão, mas a situação só melhorou após as ações de saneamento da cidade.

Sanear uma cidade é promover o recolhimento e o descarte apropriado dos resíduos sólidos. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, o Brasil está devendo nessa área. Pouco mais da metade dos resíduos sólidos urbanos coletados tem disposição final adequada em aterros sanitários. Perto de 25% dos resíduos ainda é despejado em lixões.

Avançamos muito no manejo do água, mas ainda há o que evoluir. Perto de 10 milhões de habitantes de áreas urbanas não estão conectados à rede de abastecimento. No esgoto, a situação é vergonhosa. O sistema coleta de forma apropriada 48,6% do esgoto produzido.

Coletado e tratado, apenas 39%. No ritmo em que avançamos, apenas em 2054 alcançaríamos a universalização do saneamento básico. É tanto tempo que, até lá, as crianças de hoje já serão avós. É fundamental exigirmos do governo o cumprimento das ações estruturantes para atingirmos as metas estabelecidas no Plano Nacional de Saneamento.

Saneamento é um problema que diz respeito, diretamente, às prefeituras. Que tal cobrarmos os candidatos para que assumam um compromisso de transformação com a sociedade? Ou agimos e pressionamos ou vamos esperar passivamente o surgimento de um novo surto, de um novo vírus da zika.

NEWTON LIMA AZEVEDO, é engenheiro, governador brasileiro do Conselho Mundial da Água e vice-presidente da Abdib – Associação Brasileira da Indústria de Base