Motores desligados

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Depois de mais de duas décadas de estagnação, a economia brasileira ganhou força nos anos 2000 e viu sua média de crescimento saltar de 2,0% ao ano entre 1980 e 2003 para 4,5% entre 2004 e 2010. Esse período de altas taxas de crescimento econômico, no entanto, arrefeceu depois de 2010. A economia brasileira voltou a crescer em um ritmo lento e, mais recentemente, começou a encolher. De 2010 a 2013 a taxa de crescimento do PIB foi de 3,0%, em 2014 caiu para 0,5%, e entre 2014 e 2016, o país enfrentou uma forte queda de 6,7% do PIB, o que significa redução de 3,4% por ano.

O período de expansão econômica lançou luz sobre os principais “motores” da economia brasileira, a saber, o aumento das exportações de commodities agrícolas e minerais, o investimento público em infraestrutura e habitação e o consumo das famílias devido ao seu grande mercado interno.

Apesar da centralidade destas variáveis para o crescimento da economia, depois de 2010 (e definitivamente após 2013) o país viu tais vetores arrefecerem. Em primeiro lugar, o consumo doméstico perdeu dinamismo. A estagnação do crédito ao consumo contribuiu para isso. Porém, a principal questão não foi sua desaceleração, mas a incapacidade da economia nacional em absorvê-lo: embora o volume de vendas tenha aumentado 45,2% entre dezembro de 2009 e seu pico, em fevereiro de 2014, a produção de bens de consumo aumentou apenas 4,9% no mesmo período. Assim, o crescimento da demanda não foi capaz de promover o crescimento do produto, já que praticamente toda a demanda adicional foi absorvida pelas importações, e não pelos produtores domésticos.

Em 2014, outro mecanismo parou: as exportações de commodities. O preço das commodities, que crescia desde 2002, gerando renda para toda a economia, entrou em processo de reversão. Além disso, o repique inflacionário – oriundo do controle excessivo e posterior abrupta liberação dos preços administrados – e a dependência por exportações de commodities forçou o país a aumentar as taxas de juros na tentativa de controlar a inflação e atrair capital, o que culminou em um aumento do déficit fiscal.

Finalmente, em 2015, o motor remanescente também foi desligado. O investimento público em habitação e infraestrutura que sustentou o crescimento brasileiro em 2014. O programa federal de investimento habitacional, o Minha Casa Minha Vida, foi reduzido a partir de 2013. Se nesse ano foram contratadas 912 mil unidades, em 2016 foram apenas 380 mil, com queda mais prenunciada na Faixa 1, a que mais depende de aportes públicos para existir. Em paralelo, os investimentos em infraestrutura foram reduzidos substancialmente, sendo cortados pela metade entre 2014 e 2016, principalmente devido a redução do investimento público. Esse mecanismo foi especialmente relevante devido ao seu potencial de aumentar a produtividade de longo prazo do país, já que o Brasil possui uma lacuna de infraestrutura relevante.

Com o objetivo de identificar o peso de cada um desses motores e seu potencial de restaurar o crescimento econômico, construímos Matrizes Insumo-Produto para o Brasil, considerando o consumo como endógeno entre 2010 e 2016. Essa modificação considera que aumentos da demanda são capazes de gerar impactos positivos em toda a cadeia produtiva, que também se multiplicam pela economia à medida que geram emprego e renda. Trata-se de um simples exercício de simulação com as contas nacionais.

Os resultados, apresentados em um Working Paper publicado pelo Cambridge Centre for Economic and Public Policy1, revelam que entre 2010 e 2013, o vazamento da demanda interna para fora, ou seja, a substituição por insumos importados e a substituição do consumo interno por bens finais importados foram os fatores que mais contribuíram negativamente para o crescimento do produto. Nesse período, os motores brasileiros estavam perdendo seu potencial de promoção do crescimento, uma vez que a indústria nacional perdia capacidade de absorver a demanda já combalida. A análise do período 2013-2016 mostra-se, porém, ainda mais relevante. A queda nos preços das commodities explica mais de um terço da queda (34,5%) na produção, enquanto a redução nos investimentos em infraestrutura e habitação explica quase metade dessa queda (41,2%).

Destaca-se que não apenas os produtores de commodities e os setores de construção foram afetados, mas também os fornecedores desses setores e aqueles que dependem do consumo das famílias. Uma vez que a demanda e a renda caíram nos setores diretamente afetados, os fornecedores da cadeia também tiveram sua produção reduzida, o que é mais claro nos setores que fornecem insumos para a construção civil, nos setores produtores de máquinas e equipamentos e nos desenvolvedores de softwares. Além disso, alguns setores, como educação e saúde privada, assim como, os fornecedores de bens de consumo, que dependem da demanda das famílias, tiveram uma queda representativa da produção devido ao desligamento desses motores.

Para restaurar a economia, o governo deveria estruturar um programa forte de investimentos em infraestrutura, além de reestabelecer os mecanismos de incentivo ao investimento em residências, como o Minha Casa Minha Vida. Para tanto, é necessária uma nova onda de bons projetos estruturantes. Concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs) e Privatizações em setores que a iniciativa privada tenha interesse e competência para gerir, podem ser acelerados, no entanto, a agenda econômica de infraestrutura precisa integrar fontes públicas, privadas e internacionais para novos investimentos (greenfield).

O investimento em infraestrutura como parcela do PIB está em apenas 1,7%, enquanto para o país melhorar a sua competitividade e produtividade são necessários ao menos 4,8% de investimentos, por ano, durante o período de 10 anos. Como o atual nível de investimento se quer cobre a depreciação dos ativos de infraestrutura, investimentos no setor deveriam figurar como principal vetor de recuperação da economia. Como? No curto prazo receitas com concessões e privatizações deveriam ser direcionadas para o desenvolvimento de novos projetos no setor e investimentos públicos, e não para abatimento de dívida. Além disso, o investimento público não deve ser limitado pelo teto dos gastos, que deveria separar o gasto corrente do gasto com investimento, pois este é fundamental para impulsionar a economia no curto prazo e ainda garante sua sustentabilidade no longo prazo.

Guilherme Magacho, economista e PhD pela Universidade de Cambridge. Atualmente é Professor da UFABC e Pesquisador da FGV e do Cambridge Centre for Economic and Public Policy.

 Igor Rocha, economista e PhD pela Universidade de Cambridge. Co-fundador da Cambridge Society for Social and Economic Development e atualmente é diretor de Planejamento e Economia da Abdib.

 

1 Working Paper disponível em: https://www.landecon.cam.ac.uk/research/real-estate-and-urban-analysis/centres/ccepp/working-papers-series